Cinema, Crítica de Filme

Era Uma Vez Minha 1ª Vez | Crítica

Com um quarteto de protagonistas que funciona muito bem, filme transforma um pacto entre amigas em uma história leve sobre amadurecimento, escolhas e amizade. 

Crédito: Helena Barreto

Falar sobre a primeira vez pode parecer, à primeira vista, um caminho bastante conhecido para uma história adolescente. Era Uma Vez Minha 1ª Vez, adaptação do livro homônimo de Thalita Rebouças, encontra uma maneira mais interessante de trabalhar o tema ao entender que não existe uma experiência única quando quatro pessoas diferentes estão passando por momentos parecidos da vida.

Teresa, Clara, Tuca e Patty fazem um pacto para perderem a virgindade até a formatura, mas o que poderia facilmente se transformar em uma sequência de situações previsíveis acaba funcionando como ponto de partida para falar sobre relacionamentos, inseguranças, expectativas e, principalmente, escolhas. O filme acompanha as quatro amigas justamente no último ano do ensino médio, quando a proximidade da formatura também significa que aquele grupo, tão unido naquele momento, em breve seguirá caminhos diferentes.

É nesse período de transição que o roteiro encontra seu principal equilíbrio. O pacto é o elemento que aproxima as histórias, mas cada uma das meninas passa a lidar com ele de uma maneira própria. Afinal, apesar de terem idades parecidas e compartilharem uma amizade muito forte, elas não pensam da mesma forma, não desejam as mesmas coisas e tampouco estão prontas para viver as mesmas experiências 

Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte formam um quarteto que funciona muito bem justamente porque nenhuma das personagens parece estar ali apenas para ocupar um estereótipo. Teresa, Clara, Tuca e Patty têm personalidades e questionamentos diferentes, e as quatro atrizes conseguem levar essas características para a tela de maneira bastante natural.

A amizade entre elas é, inclusive, um dos maiores acertos do filme. As conversas parecem ter surgido daquele tipo de intimidade construída durante anos, com provocações, brincadeiras, conselhos e opiniões que nem sempre são recebidos da maneira esperada. Os diálogos têm um lado leve e divertido, mas não precisam transformar todas as situações em uma piada. Existe espaço para inseguranças e dúvidas sem que o roteiro precise recorrer constantemente a grandes momentos dramáticos.

Essa naturalidade também aparece na maneira como as descobertas acontecem. Não existe uma necessidade de criar grandes acontecimentos mirabolantes para fazer cada personagem avançar. Muitas vezes, são justamente as pequenas situações, as conversas e as decisões pessoais que fazem com que elas entendam melhor aquilo que querem ou não querem para suas próprias vidas.

Crédito: Helena Barreto

E isso permite que o filme trate o mesmo elemento por diferentes pontos de vista. O pacto pode ser coletivo, mas a experiência é individual. Uma garota pode enxergar determinada situação como algo importante, enquanto outra pode ter uma preocupação completamente diferente. O filme não precisa estabelecer quem está certa ou errada, porque entende que crescer também significa descobrir que as pessoas ao nosso redor podem viver experiências semelhantes de maneiras completamente diferentes.

Outro aspecto interessante é a forma como a produção incorpora elementos do mundo atual. As personagens estão inseridas em uma geração acostumada a registrar momentos da própria vida e compartilhar parte deles na internet. Mas existe uma distinção importante entre mostrar o cotidiano e expor a intimidade, e o roteiro parece consciente disso. As redes sociais fazem parte da vida das garotas sem transformar suas experiências pessoais em um espetáculo permanente para outras pessoas.

Essa abordagem ajuda a deixar as personagens mais próximas da realidade contemporânea sem fazer com que a tecnologia se torne apenas uma ferramenta para criar conflitos artificiais. A internet está ali porque faz parte da vida delas, mas não precisa ser responsável por todos os problemas.

Também funciona bem o fato de o filme não obrigar as quatro amigas a estarem juntas o tempo inteiro. Quando elas se separam para viver suas próprias histórias, conseguimos enxergar ainda mais claramente as diferenças entre elas. O grupo continua sendo importante, mas cada personagem precisa existir também fora daquela amizade.

É justamente nesses momentos individuais que o filme consegue mostrar que a passagem para a vida adulta não acontece de maneira sincronizada. Enquanto a formatura se aproxima e o futuro começa a exigir decisões, cada uma precisa lidar com seus próprios sentimentos. A promessa feita entre amigas passa a dividir espaço com outras prioridades, relações e inseguranças.

O roteiro consegue equilibrar esse turbilhão de emoções sem transformar a história em um drama pesado. Há momentos de dúvida, situações mais delicadas e conflitos pessoais, mas eles convivem naturalmente com o humor e com a leveza da amizade. Essa alternância evita que o filme fique preso a apenas uma tonalidade e também reforça que a adolescência não é formada exclusivamente por grandes crises.

Talvez seja justamente essa ausência de uma grande necessidade de exagerar que torne a história tão agradável. Era Uma Vez Minha 1ª Vez não precisa inventar uma situação gigantesca para falar sobre amadurecimento. O simples fato de quatro amigas estarem diante de um período de mudanças já oferece material suficiente para construir suas histórias.

Nota: 4/5

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