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GRENAL: O Maior Clássico das Américas | Crítica

Mais do que uma disputa entre dois clubes, o Grenal é apresentado como uma história de paixão, memória e pertencimento que atravessa gerações. 

Existe uma diferença entre acompanhar uma partida de futebol e entender o que aquele jogo representa para quem está nas arquibancadas. No caso de Grêmio e Internacional, essa diferença parece ainda maior. GRENAL: O Maior Clássico das Américas parte de mais de um século de história para mostrar que o Gre-Nal não é apenas uma sequência de resultados, gols e títulos, mas uma rivalidade que se tornou parte da identidade cultural do Rio Grande do Sul.

Com 84 minutos, o documentário escolhe uma estrutura bastante tradicional: começa no primeiro Gre-Nal e segue de maneira linear pelos confrontos seguintes até chegar aos clássicos mais recentes. É uma decisão que facilita o acompanhamento da história, principalmente para quem não conhece todos os capítulos dessa rivalidade, enquanto para os torcedores mais apaixonados funciona quase como uma viagem por diferentes momentos que ficaram marcados na memória.

A narrativa passa por partidas que agradaram aos dois lados. Goleadas, resultados históricos, acontecimentos curiosos e episódios que ganharam um significado especial para uma das torcidas aparecem ao longo do caminho. E o filme entende que, em uma rivalidade como essa, nem sempre é necessário que o jogo tenha sido decisivo para entrar na memória coletiva. Às vezes, um detalhe ocorrido em 90 minutos é suficiente para permanecer durante décadas.

Essa perspectiva ajuda o documentário a falar sobre futebol a partir do amor pelo jogo acima de tudo. Existe, naturalmente, a paixão pelo próprio clube, mas “GRENAL” parece interessado principalmente na capacidade que uma partida tem de mudar completamente o estado emocional de quem acompanha. 

Um dos elementos mais interessantes está justamente nos depoimentos dos jornalistas. Eles não são apresentados como observadores completamente neutros da rivalidade. Pelo contrário: são profissionais que assumem claramente suas preferências por Grêmio ou Internacional. Essa escolha acrescenta uma camada jornalística diferente ao documentário, porque permite que a memória do clássico seja contada por pessoas que também carregam uma relação afetiva com aquilo que estão narrando.

Isso não significa que o filme precise escolher um lado. A graça está justamente em permitir que gremistas e colorados tenham seus momentos de celebração e suas lembranças particulares. A paixão declarada dos entrevistados deixa evidente que, quando se fala de Grenal, a objetividade absoluta talvez seja menos interessante do que reconhecer que existe emoção envolvida.

Visualmente, o documentário também encontra uma maneira simples de reforçar essa divisão. As cores vermelho e azul aparecem na fotografia de acordo com o lado do entrevistado ou do momento abordado, criando uma identificação imediata entre aquilo que está sendo contado e a torcida à qual aquela memória pertence. É um recurso que poderia facilmente se tornar exagerado, mas aqui funciona como uma extensão visual da própria rivalidade.

Outro ponto que merece destaque é o trabalho realizado com as imagens de arquivo. Fotografias, registros antigos e partidas de diferentes períodos ajudam a construir a passagem do tempo, e existe um cuidado perceptível na recuperação e apresentação desse material. Em uma produção que depende tanto da memória visual do futebol, preservar e valorizar essas imagens é fundamental para que o espectador consiga perceber como o clássico mudou ao longo das décadas.

A própria maneira de identificar os confrontos, mantendo a numeração dos Grenais, contribui para essa sensação de acompanhar uma história que continua sendo escrita. Cada partida é mais um capítulo de uma rivalidade que atravessa gerações, e o recurso reforça que não estamos diante de uma coleção aleatória de jogos, mas de uma sequência histórica que ganhou vida própria.

Ao mesmo tempo, a estrutura linear faz com que alguns acontecimentos recebam mais espaço do que outros, enquanto determinadas passagens funcionam mais como registros históricos do que como aprofundamentos. É uma característica natural de um documentário que precisa condensar mais de um século de confrontos em pouco mais de uma hora, mas também significa que quem espera uma análise mais aprofundada de determinados episódios pode sentir que alguns capítulos passam rapidamente.

Ainda assim, o objetivo parece ser menos explicar definitivamente o Gre-Nal e mais permitir que diferentes memórias ajudem a construir esse significado. E, nesse ponto, o filme funciona porque entende que uma rivalidade esportiva não é feita somente pelos grandes craques ou pelos jogos mais importantes. Ela também é formada pelas lembranças individuais de quem estava assistindo.

Temos um documentário sobre futebol, mas também sobre memória e pertencimento. Ao revisitar confrontos históricos, personagens e imagens de diferentes épocas, a produção mostra como duas camisas podem transformar uma partida em um acontecimento muito maior.

A força do Grenal: depois de tantos anos, ainda existe algo em jogo mesmo quando não há título sendo decidido. Para gremistas e colorados, cada novo encontro carrega um pedaço dos anteriores. E o documentário consegue registrar essa história sem tentar apagar a paixão de nenhum dos lados, porque, em uma rivalidade como essa, é justamente a paixão que faz o jogo continuar sendo tão importante.

Nota: 4/5

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