Mais do que uma história de amor, o filme observa os caminhos individuais de duas pessoas depois que uma relação chega ao fim.

Um relacionamento pode terminar em uma grande discussão, mas isso não significa que as consequências também serão iguais para quem está dos dois lados. Três Vezes Adeus parte justamente dessa ideia ao acompanhar Marta e Antonio depois de uma briga que acaba levando ao fim da relação. A diferença é que o filme não transforma a separação em uma desculpa para criar uma história de reconciliação. Eles terminam e, a partir daí, precisam descobrir como continuar suas próprias vidas.
Antonio, que trabalha como chef de cozinha, encontra no restaurante uma maneira de ocupar a cabeça e seguir com sua rotina. Mesmo tendo sido dele a decisão de terminar, Marta continua presente em seus pensamentos. Já ela reage de uma maneira mais introspectiva, se fechando e se afastando do mundo enquanto tenta entender o que fazer com tudo aquilo que está sentindo.
A diretora encontra uma maneira interessante de contar essa história ao dividir o protagonismo entre os dois. Em vez de transformar um deles no responsável por carregar toda a narrativa, o filme acompanha como cada um lida com o fim da relação, permitindo perceber que seguir em frente pode significar coisas completamente diferentes dependendo de quem está vivendo aquela experiência.
É uma escolha que funciona especialmente bem porque a trama não trata o término como uma experiência única. Enquanto Antonio tenta preencher o espaço deixado pela relação através do trabalho, Marta começa a enfrentar problemas físicos que inicialmente parecem estar ligados ao sofrimento provocado pela separação. O enjoo e a perda brusca de apetite passam a chamar a atenção das pessoas ao seu redor e, aos poucos, ela percebe que existe algo mais acontecendo.

Essa mudança é importante porque desloca a história para além do romance. O que parecia ser apenas uma consequência emocional do término passa a exigir que Marta olhe para a própria vida de outra maneira. A descoberta também reforça uma das ideias mais interessantes do filme: nem sempre aquilo que sentimos tem uma explicação simples, e nem sempre conseguimos separar completamente as emoções, as escolhas e aquilo que acontece com nosso corpo.
Alba Rohrwacher é fundamental nesse processo. A atriz constrói uma Marta bastante centrada mesmo quando a personagem está vivendo um verdadeiro turbilhão de emoções. Em vez de transformar o sofrimento em grandes momentos dramáticos, Rohrwacher trabalha com uma atuação mais contida, deixando que os pequenos gestos e mudanças de comportamento revelem aquilo que Marta ainda está tentando compreender.
Isso faz com que sua personagem seja interessante justamente por não ter todas as respostas. Ela precisa lidar com o fim do relacionamento, com novas emoções, com o trabalho e com uma situação que muda sua percepção sobre o próprio momento que está vivendo. A atriz consegue acompanhar essas transformações sem fazer com que pareçam repentinas, permitindo que Marta avance aos poucos.
Ao mesmo tempo, a narrativa não abandona Antonio. Acompanhá-lo no restaurante é uma maneira de mostrar que ele também está tentando reconstruir sua rotina, ainda que suas escolhas sejam diferentes das de Marta. O filme não precisa transformar essa trajetória em uma disputa para descobrir quem sofreu mais ou quem conseguiu superar primeiro. Cada um simplesmente encontra uma maneira diferente de continuar.

É aí que a divisão do protagonismo se torna mais significativa. A diretora troca constantemente o foco para mostrar que não existe apenas uma maneira de lidar com uma separação. Existem decisões pessoais, responsabilidades, novos problemas e situações inesperadas que aparecem no caminho. E, por mais que duas pessoas tenham compartilhado uma parte importante da vida, o momento seguinte pertence individualmente a cada uma delas.
O roteiro também acerta ao não apresentar esse processo como algo fácil. Seguir em frente não acontece de uma hora para outra e tampouco significa necessariamente deixar tudo para trás. Marta e Antonio precisam fazer escolhas enquanto ainda carregam parte do que viveram juntos, e é justamente essa contradição que deixa a história mais próxima da realidade.
O filme encontra sua força, portanto, menos nas reviravoltas e mais na maneira como observa seus personagens. A separação é apenas o ponto de partida para acompanhar duas pessoas tentando entender quem são depois de uma mudança importante em suas vidas. E, no caso de Marta, essa caminhada ganha ainda mais camadas quando ela percebe que o que está acontecendo não pode ser explicado apenas pela dor do término.
Seguir em frente é simplesmente isso: dar um passo, fazer uma escolha, lidar com o que aparece no caminho e tentar descobrir o próximo movimento. Nem sempre existe uma saída simples e talvez seja justamente essa a ideia.
Nota: 4/5
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