As corridas são dinâmicas e violentas, mas o filme se perde ao tentar transformar seu universo em algo maior do que sua própria competição.

Corrida dos Bichos parte de uma ideia bastante brasileira para construir uma distopia que mistura sobrevivência, desigualdade social e entretenimento. Disponível no Prime Video, o longa leva o tradicional jogo do bicho para um futuro em que o Rio de Janeiro está em ruínas e segregado, e transforma a aposta em uma corrida mortal. Cada competidor representa um animal e precisa colocar outra pessoa como garantia para entrar na disputa. No fim, apenas os vencedores recuperam seus entes queridos.
A premissa tem potencial. Existe uma tentativa evidente de transformar algo profundamente associado à cultura brasileira em uma engrenagem de um futuro distópico, criando um espetáculo em que pessoas pobres arriscam a própria vida enquanto uma parcela mais privilegiada da sociedade acompanha tudo como entretenimento. O jogo, portanto, não é apenas uma competição: é também uma representação do abismo entre quem participa e quem pode simplesmente assistir e apostar.
E o filme consegue explicar bem essa dinâmica. Conforme a corrida ganha importância, também entendemos como diferentes grupos da sociedade se relacionam com ela. Para alguns, trata-se da possibilidade de mudar de vida. Para outros, é apenas mais uma forma de diversão e aposta. Essa diferença ajuda a estabelecer sua crítica social sem precisar transformar cada momento em um discurso sobre desigualdade.
É justamente nas corridas que o longa encontra seus melhores momentos. A direção aposta em cortes próximos, planos mais abertos, diferentes perspectivas e muita movimentação para acompanhar os competidores. A combinação entre corrida e elementos de parkour dá dinamismo às sequências e faz com que exista uma sensação real de velocidade e perigo. São momentos em que o filme parece finalmente encontrar sua identidade.

As referências também são bastante perceptíveis. Existe algo de Jogos Vorazes na ideia de transformar pessoas reais em participantes de uma competição em que a derrota pode significar a morte, enquanto o público acompanha e aposta. Já Mad Max aparece na construção de uma sociedade que foi completamente modificada depois da chamada “Grande Catástrofe”. A produção, no entanto, evita copiar diretamente a estética mais extravagante da franquia de George Miller, deixando de lado veículos e figurinos exagerados para criar uma versão mais próxima de um futuro brasileiro destruído.
O problema é que a produção parece ter mais ideias do que espaço para desenvolvê-las. A trama principal apresenta uma quantidade enorme de personagens, conflitos, histórias paralelas e elementos daquele universo, mas nem todos conseguem ganhar importância de verdade. Existe um elenco cheio de rostos conhecidos, mas muitos deles aparecem em papéis pequenos que pouco interferem no desenvolvimento da trama. Essa escolha provoca uma sensação curiosa: reconhecemos os atores e atrizes, mas nem sempre conseguimos lembrar o que seus personagens acrescentaram à história.
O mesmo acontece com algumas das subtramas. Fora da corrida, determinados personagens simplesmente aparecem, participam de algum momento e desaparecem por longos períodos. Como o filme precisa retornar constantemente à competição principal, essas histórias paralelas acabam parecendo mais promessas do que partes realmente integradas da narrativa.
Também existe uma tendência à caricatura. Alguns personagens possuem trejeitos, falas e comportamentos tão exagerados que parecem existir para deixar evidente ao público quem eles são.
E excesso talvez seja a palavra que melhor define o filme. Há muitos elementos que não se tornam memoráveis e que poderiam ser retirados sem comprometer a história. A própria participação de Anitta, responsável pela narração da corrida, chama atenção mais pelo nome envolvido do que por aquilo que acrescenta à experiência.

A distopia também sofre com isso. O filme apresenta uma sociedade que passou por uma transformação radical e cria diversos elementos para explicar como aquele mundo chegou à situação atual, mas nem tudo recebe uma explicação satisfatória.
Isso não seria necessariamente um problema se a produção conseguisse fazer esses elementos funcionarem organicamente. O problema é que, quando se acumulam personagens, subtramas, regras, acontecimentos e informações sobre aquele universo, fica cada vez mais difícil entender o que realmente importa para a narrativa. E, ironicamente, aquilo que mais funciona é justamente o elemento que dá nome ao filme.
Quando os corredores estão na pista, Corrida dos Bichos encontra ritmo, tensão e identidade visual. A disputa tem perigo, movimento e uma boa utilização dos espaços. É possível entender as regras, acompanhar os personagens e sentir que existe algo em jogo.
O elenco também acaba prejudicado por essa estrutura. Há nomes conhecidos suficientes para criar expectativa, mas poucos conseguem desenvolver personagens realmente marcantes. A quantidade de rostos famosos não se transforma necessariamente em qualidade narrativa, principalmente porque boa parte deles não tem tempo suficiente para construir algo além de uma participação pontual.
O resultado é um filme com uma ideia interessante e algumas sequências bastante competentes, mas que parece não saber exatamente até onde precisa ir. Corrida dos Bichos tinha potencial para construir uma distopia brasileira com personalidade própria, especialmente ao utilizar o jogo do bicho como ponto de partida para discutir desigualdade e transformar a violência em espetáculo.
Nota: 2/5
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