Entre o suspense psicológico e o drama de sobrevivência, A Última Casa encontra sua força na família, mas se perde ao tentar explicar seu próprio mundo.

A Última Casa começa com uma premissa simples, mas rapidamente mostra que seu maior interesse não está apenas na ameaça que ronda seus personagens, e sim na forma como uma família tenta continuar existindo quando o mundo ao redor deixa de funcionar. Disponível na Netflix, o longa acompanha uma família de quatro pessoas e um cachorro idoso que, de repente, se vê presa dentro de casa e precisa encontrar maneiras de sobreviver à falta de alimentos e a uma ameaça misteriosa que permanece à espreita.
O roteiro é eficiente ao não perder tempo para apresentar sua situação. Somos rapidamente colocados dentro daquela realidade e descobrimos que o problema não está restrito àquela família: todos estão presos em suas próprias casas. A partir daí, a produção transforma o ambiente doméstico em praticamente outro personagem da história, explorando quartos, corredores, cômodos e diferentes espaços da residência para mostrar como aquele lugar se transforma conforme os dias passam.
Essa utilização da casa é um dos pontos mais interessantes do filme. O espaço inicialmente reconhecível e confortável passa a representar confinamento, escassez e insegurança. As mudanças no tempo ajudam a reforçar essa transformação, assim como a maneira encontrada pelos personagens para ocupar cada ambiente. O que antes era apenas uma casa passa a ser o mundo inteiro daquela família.
No começo, o filme também encontra bastante força na própria dinâmica familiar. A resistência construída entre os quatro funciona porque existe uma sensação de que eles realmente estão tentando se adaptar àquela situação. Não há grandes discursos sobre sobrevivência, apenas a necessidade de criar um novo cotidiano. E o roteiro acerta ao tratar essa nova rotina com seriedade.

Seu humor é mais discreto e surge naturalmente das conversas e das situações daquele novo cotidiano. Isso ajuda a criar uma atmosfera diferente da encontrada em produções que transformam o apocalipse em uma sucessão de momentos engraçados. Aqui, a ameaça é tratada com seriedade, e a sensação de aprisionamento permanece presente mesmo quando nada particularmente assustador está acontecendo.
O elenco também contribui bastante para isso. Wagner Moura interpreta um pai que assume para si a responsabilidade pela segurança da família. Ele entende rapidamente que sobreviver significa fazer escolhas difíceis e que nem todas elas serão moralmente confortáveis. Existe uma preocupação constante em manter os filhos protegidos, mesmo quando isso significa tomar decisões que podem gerar conflitos dentro da própria casa.
Greta Lee, por sua vez, encontra na mãe uma personagem que funciona como o ponto de equilíbrio daquela família. Ela é responsável por parte das mudanças necessárias para que todos continuem vivendo naquele novo mundo e, ao mesmo tempo, se transforma em uma espécie de porto seguro para os demais.
As crianças também ganham espaço importante na narrativa. E quando acontece o salto temporal de cinco anos, o filme aproveita a mudança para mostrar como o confinamento afetou cada faixa etária.

Quanto mais a história avança, mais perguntas aparecem. O problema não está necessariamente em deixar mistérios sem resposta, mas em apresentar novas informações sem oferecer elementos suficientes para que elas tenham um fechamento satisfatório. A distopia em que os personagens estão inseridos faz sentido dentro da lógica do filme, mas é pouco explicada e, consequentemente, acaba tendo um impacto menor do que poderia.
Isso não significa que o longa seja descartável. Pelo contrário. Existe uma experiência interessante em acompanhar aqueles personagens tentando manter algum tipo de normalidade enquanto o mundo conhecido desapareceu. O problema é que o filme parece ter mais ideias do que tempo ou disposição para desenvolvê-las completamente.
O núcleo familiar impede que a produção perca totalmente seu propósito. Wagner Moura, Greta Lee e os jovens atores ajudam a sustentar uma história que funciona melhor quando olha para dentro daquela casa do que quando tenta explicar o mundo exterior. É na relação entre eles, nos pequenos conflitos e nas mudanças provocadas pelo confinamento que A Última Casa encontra seus melhores momentos.
Temos um suspense psicológico competente, com uma boa utilização do espaço e personagens capazes de despertar interesse. É uma obra que começa melhor do que termina, mas que ainda encontra valor na maneira como transforma uma casa em prisão e, principalmente, na forma como mostra uma família tentando continuar sendo uma família quando o mundo deixou de oferecer qualquer segurança.
Nota: 3/5
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