Hal Jordan e John Stewart ganham uma dinâmica promissora em um primeiro episódio que mistura investigação, ficção científica e mistério.

Lanternas começa muito mais interessada em seus personagens do que em mostrar o tamanho do universo que pretende construir. E isso talvez seja uma das melhores decisões do primeiro episódio. Embora a série tenha uma história envolvendo a Tropa dos Lanternas Verdes, ameaças cósmicas e elementos que ultrapassam os limites da Terra, o início aposta em uma abordagem mais urbana, centrada em uma investigação e, principalmente, na relação entre dois personagens bastante diferentes.
De um lado está John Stewart (Aaron Pierre), recém-chegado à Tropa e carregando consigo a disciplina e a rigidez de sua formação militar. Do outro, Hal Jordan (Kyle Chandler), uma espécie de celebridade entre os humanos e uma verdadeira lenda entre os Lanternas. A diferença entre os dois fica evidente rapidamente, mas a série não transforma isso apenas em uma oposição entre o soldado disciplinado e o veterano experiente.
Hal é brincalhão, aparentemente despreocupado e muitas vezes parece estar fora do prumo, mas existe uma segurança por trás desse comportamento que deixa claro por que ele conquistou tanto respeito. John, por sua vez, é mais duro e contido, alguém que parece tentar manter tudo sob controle. O interessante é que o episódio já deixa escapar algumas rachaduras nessa postura. Ele não é simplesmente o personagem inabalável que sua formação poderia sugerir e, em determinados momentos, pode tomar decisões questionáveis.
Essa diferença de personalidade faz com que a química entre Aaron Pierre e Kyle Chandler seja um dos pontos mais interessantes do episódio. A relação entre os dois funciona justamente porque eles não parecem estar ali apenas para cumprir uma dinâmica de mentor e aprendiz. Existe uma tensão natural, mas também uma curiosidade mútua, que pode ganhar bastante espaço conforme a história avançar.
Outro elemento que chama atenção é a própria construção temporal. A série trabalha com duas linhas do tempo: 2016, quando acompanhamos o início do treinamento de John ao lado de Hal, e 2026, período em que John está envolvido em um mistério que ainda precisa ser compreendido. O primeiro episódio não entrega todas as respostas, prefere ambientar inicialmente.
Existe a sensação de que o que aconteceu no passado terá consequências importantes para aquilo que estamos vendo no presente. A diferença de dez anos não parece ser apenas um recurso narrativo para apresentar personagens em momentos distintos de suas trajetórias, mas uma peça que deverá se encaixar conforme a investigação avance.

E a investigação começa de maneira relativamente simples: um assassinato no interior dos Estados Unidos. Só que, como era de se esperar de uma história sobre os Lanternas Verdes, rapidamente percebemos que existe algo muito maior por trás daquele caso. O episódio começa a inserir elementos que apontam para algo vindo de fora do planeta, mas faz isso sem abandonar completamente o caráter investigativo e terrestre da narrativa.
Essa escolha deixa Lanternas com um começo mais urbano do que propriamente cósmico. Mesmo quando a série começa a apresentar conceitos ligados à Tropa e ao universo dos quadrinhos, ela parece interessada em construir primeiro uma história de personagens e investigação antes de simplesmente despejar efeitos visuais e ameaças intergalácticas na tela.
Para quem conhece os quadrinhos, existem ainda alguns momentos que funcionam quase como pequenas recompensas. A série faz referências à origem de Hal como Lanterna Verde e ao momento em que John é escolhido, incorporando esses elementos à narrativa sem transformar o episódio em uma explicação gigantesca sobre a mitologia do personagem.
Também existe uma sensação de maior liberdade na utilização de temas e elementos do universo da DC. Em vez de tentar apresentar imediatamente uma grande ameaça que precisa salvar o planeta, a série parece querer construir seu próprio caminho, começando pequeno para depois ampliar suas proporções.
Ainda é cedo para saber se essa estrutura vai funcionar completamente, principalmente porque o primeiro episódio apresenta algumas peças que claramente deverão ganhar importância mais adiante.
O principal mérito está em não ter pressa para mostrar tudo o que esse universo pode oferecer. Antes de serem dois Lanternas Verdes envolvidos em uma conspiração com possíveis implicações cósmicas, Hal e John são dois personagens muito diferentes tentando entender um ao outro e, principalmente, o que está acontecendo ao redor deles.
Se a série conseguir manter esse equilíbrio entre investigação, desenvolvimento dos personagens e expansão gradual da mitologia dos Lanternas, pode ter encontrado uma maneira interessante de apresentar esse universo para quem já conhece os quadrinhos e também para quem está chegando agora.
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