Cinema, Crítica de Filme

Honestino | Crítica

Ao recuperar a trajetória de Honestino Guimarães, o documentário humaniza o líder estudantil antes de transformá-lo em símbolo de uma época. 

Honestino encontra uma maneira interessante de revisitar a trajetória de uma figura importante da história brasileira ao escolher começar pelo homem antes de chegar ao símbolo. Misturando documentário e ficção, o longa reconstrói a vida de Honestino Guimarães por meio de cartas, poemas, imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos, políticos e companheiros de militância, construindo um retrato que vai muito além de sua atuação política.

Essa escolha faz diferença porque, antes de apresentar Honestino como líder estudantil e militante durante a ditadura militar, o filme procura mostrar sua relação com a família, seus afetos e os caminhos que o levaram a se tornar uma figura tão importante daquele período. É uma maneira eficiente de aproximar o espectador de alguém que poderia facilmente ser apresentado apenas como um personagem histórico.

A partir daí, Honestino amplia sua narrativa para acompanhar não apenas a trajetória do protagonista, mas também parte da própria transformação do Brasil. Brasília ocupa um espaço importante nesse percurso, funcionando quase como um segundo personagem. A história de Honestino se mistura à construção e às mudanças da capital, criando uma relação interessante entre a trajetória individual e as transformações políticas e sociais do país.

O longa consegue equilibrar bem seu caráter didático e histórico. Existe bastante informação, mas ela não aparece simplesmente como uma sucessão de fatos e datas. Depoimentos, documentos, imagens da época e momentos reconstituídos são utilizados para construir uma linha narrativa que acompanha o protagonista sem transformar a produção em uma aula excessivamente rígida.

A escolha de manter uma trajetória cronológica também ajuda. O filme respeita a passagem do tempo e evita ficar constantemente pulando entre diferentes períodos para criar efeitos dramáticos. A história avança conforme os acontecimentos da vida de Honestino, permitindo que o espectador compreenda suas mudanças pessoais e políticas dentro do contexto em que elas aconteceram.

Os depoimentos são fundamentais nesse processo, familiares, amigos e companheiros de militância acrescentam diferentes perspectivas sobre Honestino e ajudam a construir uma imagem mais ampla. Nomes como Almino Afonso, Jorge Bodanzky e Franklin Martins aparecem ao lado de Betty Almeida, sua biógrafa, contribuindo para que o protagonista seja apresentado por diferentes pessoas que compartilharam momentos distintos de sua trajetória.

A mistura entre os registros históricos e as cenas reconstituídas também contribui para essa aproximação. O filme consegue colocar o espectador diante de imagens de uma época que já passou e, ao mesmo tempo, criar momentos que ajudam a reconstruir aquilo que não foi registrado pelas câmeras. É uma combinação que reforça a sensação de acompanhar uma vida em movimento, e não apenas observar um arquivo histórico.

Bruno Gagliasso entra nesse contexto como um elemento agregador. Sua participação funciona principalmente para destacar determinados documentos, cartas ou detalhes da trajetória, aproximando o público contemporâneo daquela história. Não existe exatamente uma atuação construída dentro de uma linha temporal tradicional, nem uma interpretação que acompanhe o personagem durante diferentes fases de sua vida. 

Ainda assim, sua presença não compromete a narrativa. Pelo contrário, em determinados momentos, serve como uma ponte entre o material histórico e o espectador atual. Gagliasso ajuda a chamar atenção para informações que poderiam passar despercebidas e reforça a tentativa do documentário de fazer com que uma história de mais de cinco décadas atrás continue dialogando com o presente.

Talvez seja justamente essa abordagem que torne o filme mais interessante. Ao contar Honestino, o filme também conta um pedaço do Brasil, de Brasília e de um período em que a juventude passou a ocupar um espaço importante nos conflitos políticos do país. 

Honestino é, portanto, um registro histórico que encontra força na organização de seu material. As cartas, poemas, imagens, reconstituições e depoimentos são reunidos de maneira linear e acessível, permitindo que a trajetória do personagem seja compreendida sem que o filme precise recorrer constantemente a saltos temporais.

Nota: 4/5

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