Teatro

Sermão de Santo Antônio aos Peixes | Crítica

Com interpretações marcantes e música ao vivo precisa, espetáculo transforma um sermão em uma experiência teatral envolvente. 

Crédito: Nil Caniné

Poucos textos da literatura em língua portuguesa atravessaram os séculos com tanta força quanto Sermão de Santo Antônio aos Peixes, de Padre Antônio Vieira. Escrito no século XVII, o texto continua encontrando ecos na sociedade contemporânea ao abordar temas como desigualdade social, exploração econômica, corrupção e a violência contra os povos indígenas. A montagem dirigida e adaptada por Moacir Chaves demonstra justamente isso: algumas palavras nunca envelhecem, apenas encontram novos públicos.

Diferente de uma peça convencional, o espetáculo parte de um sermão, sem personagens definidos ou uma narrativa tradicional. Esse desafio é abraçado por Moacir Chaves e Márcio Vito, que se alternam na condução do texto sem que a dinâmica pareça mecânica. Pelo contrário, os dois constroem uma espécie de diálogo invisível com a plateia, fazendo com que cada trecho ganhe novos significados conforme a apresentação avança.

O que chama atenção é a maneira como a interpretação cresce junto com o próprio texto. As palavras, inicialmente quase solenes, passam a adquirir diferentes camadas emocionais. Humor, indignação, ironia e emoção aparecem naturalmente. O domínio dos atores sobre o ritmo da declamação impede que a montagem se torne estática, transformando um discurso em um espetáculo pulsante.

A encenação aposta na simplicidade. O cenário remete à atmosfera de uma praça onde um sermão é proclamado diante de uma multidão, sem excessos visuais que desviem a atenção do verdadeiro protagonista: a palavra. Essa escolha reforça a proposta da montagem e permite que o público concentre seu olhar na força do texto e nas interpretações.

Crédito: Nil Caniné

Outro elemento fundamental é a direção musical de Gustavo Corsi, que executa a trilha ao vivo durante toda a apresentação. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, a guitarra participa ativamente da narrativa. As entradas musicais surgem em momentos específicos, nas transições entre as falas, quando a intensidade da interpretação aumenta ou nos trechos de maior peso dramático. Misturando distorções, intensidade e passagens mais delicadas, a trilha cria uma camada extra de emoção sem jamais competir com o texto, encontrando sempre o momento exato para entrar em cena.

É justamente essa combinação entre palavra, interpretação e música que mantém o espetáculo em constante movimento. Mesmo tendo como base um único texto, praticamente sem grandes divisões narrativas, a montagem evita qualquer sensação de repetição. O ritmo é cuidadosamente construído, e a passagem do tempo acontece de forma quase imperceptível para quem está na plateia.

Sermão de Santo Antônio aos Peixes reafirma a potência do teatro quando confia na força de um grande texto e em artistas capazes de lhe dar novos significados. Sob a direção de Moacir Chaves, com interpretações precisas de Moacir Chaves e Márcio Vito e a marcante presença musical de Gustavo Corsi, a montagem prova que os questionamentos de Padre Antônio Vieira permanecem atuais.

Nota: 5/5

SERVIÇO

Sermão de Santo Antônio aos Peixes

Local: Sesc Pinheiros – Teatro Paulo Autran – R. Paes Leme, 195 – Pinheiros, São Paulo, SP

Temporada: Até 8 de agosto. Quinta a sábado, às 20h30.          

Dias 31/07 e 07/08 sessões às 16h e às 20h30

Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia entrada) e R$ 15 (credencial plena).

Vendas emsescsp.org.br, pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou nas bilheterias de todas as unidades do Sesc SP.

Duração: 60 min | Classificação: 14 anos. 

Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.                                 Nos dias 31/07 e 01/08, as sessões contam com tradução em Libras.

Sesc Pinheiros  

Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo (SP)

Horário de funcionamento: Terça a sexta: 10h às 22h. Sábados: 10h às 21h. Domingos e feriados: 10h às 18h30

Estacionamento com manobrista

Como Chegar de Transporte Público: 350m a pé da Estação Faria Lima (metrô | linha amarela), 350m a pé da Estação Pinheiros (CPTM | Linha Esmeralda) e do Terminal Municipal Pinheiros (ônibus).

Acessibilidade: A unidade possui rampas de acesso e elevadores, além de banheiros e vestiários acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. Também conta com espaços reservados para cadeirantes. 

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