Cinema, Crítica de Filme, Streaming

Mayday | Crítica

Mayday mistura espionagem, Guerra Fria e humor em uma aventura de ação surpreendentemente inventiva

Crédito: Apple Tv+

Mayday poderia facilmente cair na fórmula de uma comédia de ação convencional, apoiada apenas no carisma de seus protagonistas e em algumas boas cenas de pancadaria. Mas o longa encontra caminhos mais interessantes ao transformar a própria Guerra Fria em parte fundamental de sua identidade, enquanto constrói uma improvável amizade entre dois homens que, em circunstâncias normais, provavelmente jamais teriam motivos para confiar um no outro.

Ryan Reynolds interpreta Troy “Assassin” Kelly, um piloto da Marinha dos Estados Unidos enviado para uma missão ultrassecreta em território soviético durante o auge da Guerra Fria. Quando a operação dá errado, ele acaba isolado atrás das linhas inimigas e precisa encontrar uma maneira de sobreviver e voltar para casa.

É nesse momento que entra Nikolai Ustinov, interpretado por Kenneth Branagh. Ex-agente da KGB, rabugento e com uma curiosa admiração pela cultura norte-americana, ele é justamente a pessoa que Troy menos esperaria encontrar em uma situação como aquela. A partir daí, o filme constrói sua história em torno dessa dupla improvável.

O humor de Reynolds funciona particularmente bem porque não depende apenas daquele estilo mais acelerado e espalhafatoso que já associamos ao ator. Troy possui um humor mais centrado, polido e seguro de si, que combina com sua personalidade e com a situação absurda em que se encontra. As piadas surgem principalmente da interação entre os personagens e das diferenças culturais que os separam.

Crédito: Apple Tv+

A Guerra Fria não aparece apenas como um cenário conveniente para colocar americanos e soviéticos em lados opostos. O período influencia constantemente a narrativa, os comportamentos e a relação entre os personagens. Mesmo quando a produção está brincando com suas situações, existe uma consciência de onde aquela história está inserida dentro da história mundial.

É justamente por isso que Mayday consegue utilizar elementos da cultura americana como parte de sua própria construção. Top Gun surge como uma espécie de símbolo desse imaginário, representando tanto o universo militar quanto uma determinada ideia de América que também é percebida pelo personagem soviético.

As sequências de pilotagem são outro ponto de destaque. A produção demonstra cuidado na maneira como apresenta os aviões e seus movimentos, criando cenas que inevitavelmente lembram Top Gun e Top Gun: Maverick

Branagh também se mostra uma escolha especialmente acertada para o papel. Nikolai funciona como contraponto ao personagem de Reynolds, mas não apenas por estar do outro lado da Guerra Fria. Ele consegue ser, ao mesmo tempo, os músculos e a inteligência da dupla. Quando a situação exige pancadaria, o personagem ganha algumas das melhores cenas de ação do longa, enquanto sua experiência e seu conhecimento também são fundamentais para que os dois consigam avançar.

E há uma química bastante natural entre Reynolds e Branagh. A amizade entre Troy e Nikolai não surge simplesmente porque o roteiro precisa de uma dupla de protagonistas. Ela é construída gradualmente, a partir das circunstâncias e das pequenas diferenças entre os dois. Quanto mais tempo passam juntos, mais o filme encontra espaço para desenvolver essa relação.

O objetivo inicial é sobreviver e encontrar uma maneira de voltar para casa, mas a verdadeira história acaba sendo a construção de uma amizade que nenhum dos dois imaginava possível.

Tecnicamente, o longa também apresenta algumas surpresas interessantes. A direção demonstra disposição para experimentar com planos, movimentos de câmera e enquadramentos, utilizando essas escolhas tanto nas cenas de ação quanto nos momentos de comédia. Existe uma preocupação em fazer com que a linguagem visual participe da piada e da ação, em vez de simplesmente registrar aquilo que está acontecendo.

Isso dá ao filme uma energia particular. Algumas cenas são pensadas quase como pequenos números coreografados, em que a movimentação, espaço e timing ajudam a construir o humor. Ao mesmo tempo, as sequências de ação possuem uma boa noção de escala e conseguem transmitir a dimensão daquilo que está acontecendo.

O resultado é uma produção que consegue equilibrar ação e comédia sem deixar que um gênero anule o outro. O humor não impede que as cenas de ação funcionem, enquanto as sequências de pancadaria e pilotagem não fazem com que a relação entre os protagonistas seja esquecida.

Trama surpreende justamente por ser mais cuidadoso do que sua premissa poderia sugerir. É uma comédia de ação que encontra força na química de sua dupla principal, utiliza bem o contexto histórico e demonstra criatividade nas escolhas visuais.

*Filme disponível na Apple Tv+

Nota: 4/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

Não Parece Mas É Sério

Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério

Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio

Instagram: @naoparecemaseserio

Deixe um comentário