Um conto de fadas sobre uma família que descobre que crescer não significa deixar de sonhar.

Existe algo bastante encantador em histórias que conseguem falar sobre problemas reais sem abandonar completamente a fantasia. A Maravilhosa Árvore Encantada encontra justamente nesse equilíbrio sua principal força ao acompanhar uma família que decide deixar para trás a vida em uma grande cidade para tentar realizar um sonho antigo em uma pequena comunidade.
Polly (Claire Foy) e Tim (Andrew Garfield) são pais amorosos e inventivos, mas também bastante diferentes entre si. Os dois possuem visões distintas sobre a vida e sobre o futuro da família, embora compartilhem o mesmo desejo de construir algo próprio. Quando Polly deixa seu emprego como engenheira em uma grande empresa de tecnologia, eles decidem apostar na produção de molhos de tomate feitos a partir de uma receita familiar.
A mudança, porém, está longe de ser simples. Para os filhos, abandonar a cidade significa deixar amigos, escola, rotina e até mesmo algo que parece indispensável nos dias atuais: o sinal de internet. Beth, a filha mais velha, sente especialmente o impacto da transformação e tem dificuldade para enxergar aquele novo lugar como o sonho que seus pais imaginavam.
É interessante como o filme constrói o casal protagonista quase como dois adultos com alma de crianças sonhadoras. Eles possuem responsabilidades, precisam pensar em dinheiro, contas e no futuro dos filhos, mas ainda preservam aquela capacidade de acreditar que uma vida diferente é possível. E é justamente esse contraste que dá um pouco mais de humanidade à família.

A chegada de Fran à Maravilhosa Árvore Encantada muda a dinâmica da história. Ao conhecer a fada Silky (Nicola Coughlan), a menina descobre um portal para outros mundos, habitado por diferentes seres mágicos. A partir daí, aquilo que inicialmente parece ser apenas uma aventura infantil passa a funcionar como um ponto de virada para toda a família.
O mais interessante é que essa jornada afeta cada integrante de uma maneira diferente. Enquanto as crianças encontram um espaço para exercitar a imaginação e descobrir novas possibilidades, os adultos também são obrigados a repensar algumas de suas certezas. A fantasia, portanto, não está ali apenas para criar grandes aventuras, mas para provocar mudanças dentro daquela família.
O filme também consegue sustentar uma atmosfera bastante leve durante praticamente toda a sua duração. A produção aposta em uma estética colorida, com figurinos e cenários que parecem ter saído diretamente de um conto de fadas. Os efeitos visuais ajudam a construir os mundos mágicos sem transformar tudo em uma sucessão de grandes espetáculos, mantendo a aventura acessível principalmente ao público infantil.
Essa escolha combina com a maneira como o filme trabalha seus personagens. Muitos deles possuem características bastante caricatas e facilmente identificáveis, o que facilita a compreensão da história pelas crianças. Em vez de tentar complicar excessivamente seus conflitos, a produção aposta em arquétipos que podem ser rapidamente reconhecidos e assimilados.

A imaginação das crianças ocupa um espaço central na narrativa, e o filme consegue manter essa perspectiva durante boa parte da aventura. Não é apenas uma sequência de elementos mágicos colocados para chamar atenção. A fantasia está presente na forma como aquelas crianças enxergam o mundo e, principalmente, na possibilidade de imaginar que existe algo além daquilo que os adultos conseguem perceber.
Ao mesmo tempo, o roteiro não abandona completamente os problemas cotidianos. As crianças encontram uma árvore mágica e visitam outros mundos, mas os adultos ainda precisam pensar em como pagar as contas e fazer o novo negócio funcionar. Essa combinação entre sonho e realidade ajuda a impedir que a produção se torne excessivamente distante de seus personagens.
Outro ponto curioso é a maneira como a vilania ocupa pouco espaço. Embora exista um conflito ligado ao universo mágico, o filme não transforma seu antagonismo no centro da narrativa. O foco permanece na família e nas experiências vividas pelas crianças. É menos uma história sobre derrotar um grande vilão e mais uma aventura sobre descobrir, mudar e aprender a olhar para as coisas de outra maneira.
Essa escolha faz com que o longa tenha um ritmo próprio. Quem espera uma fantasia repleta de batalhas e grandes confrontos pode encontrar uma experiência mais tranquila. Por outro lado, quem procura uma aventura familiar que privilegia personagens, imaginação e encantamento provavelmente encontrará aqui uma produção bastante agradável.
O filme consegue preservar aquilo que parece cada vez mais difícil: a capacidade de acreditar que sonhar não significa ignorar a realidade. É possível pensar nas contas, no trabalho e nas responsabilidades e, ainda assim, continuar encontrando espaço para imaginar.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério
Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio
Instagram: @naoparecemaseserio