Cinema, Crítica de Filme

A Quinta Portuguesa | Crítica

Duas pessoas marcadas pela solidão encontram uma na outra a chance de começar novamente. 

Em A Quinta Portuguesa, Fernando (Manolo Solo) é um pacato professor de Geografia que vê sua vida desmoronar quando a esposa desaparece sem deixar qualquer explicação. Ela não leva seus pertences, não há uma despedida e, aparentemente, não existe sequer uma razão capaz de explicar sua partida. Diante do vazio, Fernando começa a se perder também, tanto na vida pessoal quanto profissional, até tomar uma decisão radical: abandonar tudo e assumir a identidade de outro homem para trabalhar como jardineiro em uma quinta portuguesa.

Fernando não parece interessado em encontrar respostas a qualquer custo. Seu afastamento é quase uma fuga de si mesmo, e é nesse movimento que a narrativa transforma uma história sobre desaparecimento em uma jornada de autodescoberta.

A escolha de colocar o espectador no mesmo lugar de Fernando funciona especialmente bem. Assim como ele, nós também sabemos pouco sobre o que está acontecendo. As informações são apresentadas aos poucos, sempre filtradas pelo olhar do protagonista, fazendo com que a quinta e seus moradores sejam descobertos conforme ele se aproxima daquele novo ambiente. Não existe uma explicação imediata para tudo, e essa sensação de desconhecimento contribui para a atmosfera melancólica do filme.

É nesse espaço que Fernando conhece a dona da quinta, interpretada por Maria de Medeiros. A relação entre os dois se desenvolve a partir da solidão e das perdas que carregam, criando uma conexão entre duas pessoas que, de maneiras diferentes, também estão tentando encontrar um novo caminho. Mais do que uma relação construída por grandes acontecimentos, o vínculo nasce dos momentos de conversa, dos silêncios e da possibilidade de dividir uma dor com alguém que talvez compreenda aquilo que o outro está vivendo.

Manolo Solo e Maria de Medeiros são os grandes destaques nesse aspecto. Os dois conseguem construir personagens que não precisam explicar constantemente seus sentimentos para que eles sejam percebidos. Existe uma naturalidade na maneira como Fernando e a dona da quinta se aproximam, como se a relação fosse menos sobre encontrar respostas e mais sobre finalmente encontrar alguém disposto a escutar.

O roteiro, porém, encontra dificuldades justamente quando precisa lidar com as consequências das mentiras que sustentam essa nova vida. Fernando assume uma identidade que não é sua, enquanto outras relações também são construídas sobre informações que não correspondem exatamente à realidade. A proposta abre possibilidades interessantes para discutir identidade, fuga e recomeço, mas nem sempre o filme desenvolve essas consequências com a mesma força que apresenta suas premissas.

Isso faz com que algumas situações pareçam ter um peso menor do que poderiam. As mentiras existem, os personagens tomam decisões importantes, mas as consequências nem sempre acompanham essas escolhas. Em uma história tão interessada na ideia de reconstruir a própria vida, seria interessante observar com mais profundidade o preço que cada recomeço exige.

Além disso, a narrativa apresenta diferentes personagens que também estão passando por seus próprios processos de transformação. A ideia conversa diretamente com o tema central do filme e reforça a noção de que ninguém naquela história está exatamente onde gostaria de estar. Porém, ao ampliar demais esse movimento de recomeços, A Quinta Portuguesa corre o risco de dispersar o espectador e diminuir a força da relação entre Fernando e a dona da quinta, que é justamente onde o filme encontra sua maior potência.

A trama encontra sua força quando observa essas duas pessoas perdidas se reconhecendo uma na outra. O filme não precisa transformar essa conexão em uma grande história para que ela tenha significado. São duas pessoas tentando lidar com aquilo que perderam e, talvez sem perceber, oferecendo uma à outra a possibilidade de seguir em frente.

Com uma narrativa contemplativa e atuações que sustentam seus momentos mais íntimos, o longa constrói uma reflexão sobre perda, identidade e recomeços. Apesar de tropeçar ao desenvolver algumas consequências e abrir espaço demais para personagens e histórias paralelas, temos uma jornada sendo contada.

Nota: 3/5

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