Misturando horror, humor e elementos brasileiros, filme transforma uma pequena cidade do interior no cenário de uma improvável história de vampiros.

Existe algo naturalmente estranho nas pequenas cidades. Poucas pessoas, poucos lugares para frequentar, todo mundo conhecendo a vida de todo mundo e aquela sensação de que qualquer acontecimento diferente rapidamente vira assunto entre os moradores. Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira aproveita justamente essa característica para construir seu universo, transformando uma pequena cidade do interior no cenário perfeito para uma história que mistura política, violência, humor e horror sobrenatural.
Na trama, uma eleição divide a população de Furnas Fundas. Famílias, amigos e vizinhos passam a enxergar uns aos outros de maneira diferente enquanto disputam os rumos daquele pequeno município. Só que, enquanto todos estão preocupados com a campanha, existe uma ameaça muito mais antiga esperando para despertar.
A premissa funciona porque o filme não apresenta sua cidade apenas como um cenário. Furnas Fundas parece ter vida própria. O único bar, as poucas opções de diversão e a convivência constante entre seus habitantes ajudam a criar uma atmosfera em que existe sempre a sensação de que alguma coisa está prestes a acontecer. E, quando finalmente acontece, a estranheza parece quase inevitável diante daquele lugar.
A direção também sabe trabalhar bem os enquadramentos. Os planos valorizam os atores dentro das cenas e ajudam a apresentar os diferentes grupos que compõem a cidade. A fotografia ganha um papel importante nesse processo, principalmente ao diferenciar os momentos em que acompanhamos o núcleo humano daqueles em que a presença dos vampiros passa a dominar a narrativa.
É uma construção visual que ajuda o filme a encontrar sua identidade. Mesmo quando o sobrenatural ainda está sendo apresentado aos poucos, existe uma preocupação em fazer com que ele pertença àquele universo. O horror não parece simplesmente colocado sobre uma história que poderia acontecer em qualquer lugar. Ele está inserido naquela pequena cidade e nas pessoas que vivem ali.
E talvez seja justamente por isso que o filme consiga ser mais interessante quando aposta no elemento brasileiro. Apesar de trabalhar com uma criatura bastante conhecida do cinema fantástico, o filme não tenta simplesmente reproduzir uma história tradicional de vampiros. Existem personagens, situações e comportamentos que remetem diretamente ao nosso cotidiano, criando uma combinação curiosa entre o gótico e aquilo que reconhecemos como brasileiro.
Até a quantidade de álcool presente na história ajuda a construir essa atmosfera. O filme é tão regado a bebida que, em determinados momentos, quase dá vontade de abrir uma cachaça para acompanhar a sessão. O álcool funciona não apenas como elemento de cena, mas também como parte daquela representação de cidade pequena em que o bar acaba sendo um dos principais pontos de encontro e convivência.
Entre esses moradores está Bartira e sua improvável gangue de deslocados, personagens que vivem à margem daquela comunidade. E a escolha de colocar justamente os excluídos no centro da resposta à ameaça é uma das ideias mais interessantes da história. Aqueles que normalmente seriam ignorados ou vistos como estranhos passam a ter uma importância que os demais moradores não conseguem assumir.
O elenco também contribui para essa proposta através de personagens bastante caricatos. Em alguns momentos, essa característica pode parecer exagerada, mas existe uma funcionalidade clara em cada figura apresentada. Eles ajudam a criar o retrato de uma comunidade específica, cheia de personalidades marcantes, e fazem com que a cidade tenha aquela sensação de lugar em que todos parecem conhecer alguma história sobre todos.
O mistério, por sua vez, é construído de maneira lenta. O filme não tem pressa para entregar todas as respostas e prefere deixar algumas peças espalhadas antes de revelar como elas se conectam. Para quem espera que a narrativa sobrenatural avance rapidamente, esse ritmo pode exigir um pouco mais de paciência, mas ele acaba funcionando dentro da proposta.
Isso porque a ameaça sobrenatural não precisa dominar imediatamente a história. Primeiro existe a cidade, a eleição, as relações entre os moradores e a tensão crescente. Só depois o elemento fantástico vai ocupando cada vez mais espaço. A combinação faz com que o espectador acompanhe o despertar daquele mal junto com os personagens.
Por outro lado, é justamente no desenvolvimento do sobrenatural que o filme poderia ir um pouco mais longe. A mitologia apresentada não recebe um aprofundamento tão grande quanto poderia, e algumas questões ficam mais sugeridas do que efetivamente exploradas. Ainda assim, isso não chega a comprometer a experiência porque a força da produção está muito mais na atmosfera e na maneira como o fantástico é inserido naquele cenário brasileiro.
Essa mudança de escala pode causar estranhamento, principalmente para quem se acostumou ao ritmo mais lento da primeira parte, mas também combina com a própria proposta de uma fábula gótica. Afinal, depois de acompanhar uma cidade aparentemente comum sendo tomada por uma ameaça sobrenatural, talvez fosse difícil terminar tudo de maneira discreta.
O filme poderia desenvolver melhor sua mitologia e algumas de suas ideias, mas funciona quando entende que não precisa abandonar suas características brasileiras para contar uma história de vampiros. Pelo contrário: é justamente ao colocar o sobrenatural no meio daquela cidade interiorana, com seus moradores e suas particularidades, que encontra sua personalidade.
Nota: 3/5
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