Cinema, Crítica de Filme

Futuro Futuro | Crítica

Um quebra-cabeça narrativo que convida o espectador a reconstruir o passado junto de seu protagonista. 

Inspirado pela literatura ciberpunk de William Gibson e Philip K. Dick, Futuro Futuro poderia facilmente seguir o caminho de uma ficção científica preocupada apenas com tecnologia e estética. No entanto, Davi Pretto utiliza esse universo como ponto de partida para discutir memória, identidade e desigualdade social, construindo uma narrativa que, apesar de ambientada em um amanhã distópico, dialoga constantemente com o presente.

A história acompanha K (Zé Maria Pescador), um homem de 40 anos que desperta sem qualquer lembrança de sua própria vida e passa a viver ao lado de um clickworker solitário (João Carlos Castanha) em uma região marcada pela pobreza e pela chuva constante. Essa amnésia não é apenas um elemento da trama: ela também determina a experiência do público. O espectador conhece aquele mundo exatamente na mesma medida que o protagonista, reunindo pistas, formulando hipóteses e tentando compreender uma realidade que parece sempre esconder alguma informação importante.

Essa escolha narrativa funciona muito bem porque o roteiro evita entregar respostas rápidas. Cada interação amplia um pouco mais a compreensão daquele universo, mas também evidencia como diferentes grupos sociais ocupam espaços completamente distintos dentro da mesma cidade. Enquanto a tecnologia avança, as desigualdades permanecem praticamente intactas, criando um contraste que aproxima o filme de diversas discussões contemporâneas.

Embora a ambientação seja futurista, Futuro Futuro nunca parece distante da realidade atual. Questões relacionadas ao trabalho precarizado, ao isolamento, à dependência tecnológica e à exclusão social aparecem incorporadas naturalmente ao cotidiano dos personagens. A ficção científica deixa de ser apenas um exercício de imaginação para funcionar como uma extensão das dificuldades que já fazem parte do presente.

Outro aspecto interessante está na maneira como o filme trabalha as memórias e os sonhos de K. Sempre acompanhados por uma identidade visual e sonora muito particular, esses momentos vão sendo modificados conforme a narrativa avança. Não são lembranças estáticas: elas se reorganizam, mudam de significado e parecem responder ao esforço do protagonista para reconstruir quem ele é. 

Além de enriquecer a experiência estética, esses fragmentos cumprem uma função narrativa importante. Eles revelam pistas, aprofundam conflitos e tornam palpável a confusão mental do protagonista, fazendo com que o público compartilhe sua sensação de desorientação. 

Visualmente, o diretor aposta em uma atmosfera melancólica e úmida, onde a chuva constante parece reforçar o desgaste daquele mundo. É um ambiente que transmite a sensação de abandono e evidencia que o futuro imaginado pelo filme não rompeu com os problemas do passado.

Essa construção exige atenção do espectador. O ritmo deliberadamente paciente e a narrativa fragmentada podem afastar quem espera uma ficção científica mais convencional ou voltada para a ação. Ainda assim, é justamente essa confiança na observação e na reconstrução gradual dos acontecimentos que faz o longa encontrar sua identidade.

A trama principal demonstra que o cinema de ficção científica pode ser um poderoso instrumento para pensar o presente. Ao transformar a busca por memórias em uma investigação sobre pertencimento e desigualdade, Davi Pretto entrega um filme instigante, que utiliza sonhos, lembranças e tecnologia para lembrar que as marcas da realidade continuam existindo, mesmo quando tentamos deixá-las para trás.

Nota: 4/5

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