Entre o drama de um acidente e o terror das profundezas, um thriller eficiente que supera seus exageros.

Misturar um filme de desastre aéreo com um longa de ataque de tubarões parece uma receita pronta para um entretenimento descompromissado. Em Águas Mortais, Renny Harlin abraça essa proposta sem vergonha de explorar os clichês do gênero, mas surpreende ao dedicar boa parte do tempo ao desenvolvimento de seus personagens antes de transformá-los em alvos do caos.
A história acompanha um voo entre Los Angeles e Xangai que sofre um grave acidente após um incidente no compartimento de carga. Quando a aeronave cai no oceano, os sobreviventes acreditam que enfrentaram o pior. Não demora, porém, para perceberem que as águas escondem tubarões prontos para transformar qualquer tentativa de fuga em uma luta desesperada pela sobrevivência.
Um dos acertos do roteiro está justamente em não tratar os passageiros como simples números. Aos poucos, cada personagem recebe pequenas histórias, motivações e conflitos que ajudam a construir empatia antes que a tragédia aconteça. Os dois pilotos também ganham espaço dentro da narrativa, cada um movido por razões distintas, o que contribui para que suas decisões tenham peso durante a crise.
Essa construção faz diferença quando o desastre finalmente acontece. A longa sequência da queda do avião é, provavelmente, o ponto mais forte do filme. Harlin conduz o momento com intensidade, alternando o pânico dentro da cabine, a tentativa desesperada da tripulação de manter algum controle e o desespero dos passageiros. O resultado é uma sequência tecnicamente eficiente e carregada de tensão, que transmite a sensação de que ninguém está realmente seguro.

Essa incerteza permanece durante boa parte da sobrevivência em alto-mar. O roteiro consegue manter a dúvida sobre quem conseguirá escapar, tornando as mortes relativamente imprevisíveis. Quando os ataques acontecem, o diretor não economiza nos excessos: há sangue, violência gráfica e mortes brutais que dialogam diretamente com o espírito dos clássicos filmes de tubarão.
Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Depois da queda, alguns efeitos visuais comprometem a imersão. Em determinados momentos, a água possui uma aparência artificial, lembrando mais uma grande piscina de fundo esverdeado do que o oceano aberto. Essa escolha visual enfraquece parte da tensão justamente quando o cenário deveria reforçar a sensação de isolamento.
O roteiro também tropeça em algumas conveniências difíceis de ignorar. Certos objetos parecem resistir a situações praticamente impossíveis, como celulares que continuam funcionando depois de enfrentarem água, impactos e diversos outros obstáculos.
Ainda assim, o diretor demonstra conhecer muito bem o tipo de filme que está dirigindo. Em vez de buscar explicações complexas ou um realismo absoluto, aposta em suspense constante, personagens relativamente carismáticos e sequências de ação que mantêm o público envolvido. Mesmo quando exagera, o filme raramente perde sua capacidade de entretenimento.
Entre boas cenas de desastre, personagens que conquistam algum envolvimento emocional e ataques violentos, o longa encontra um saldo positivo, mesmo carregando algumas escolhas visuais e narrativas que diminuem parte de sua força.
Nota: 4/5
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