Entre o concreto de Brasília e as incertezas da década de 1980, três personagens vivem seus próprios ritos de passagem.

Ambientado em uma Brasília ainda em formação, Pequenas Criaturas, dirigido e escrito por Anne Pinheiro Guimarães, faz da mudança de cidade o ponto de partida para uma história que, na verdade, trata das mudanças internas de seus personagens. Longe de recorrer a grandes conflitos, o longa prefere observar como diferentes fases da vida reagem ao mesmo acontecimento, construindo um drama intimista que encontra força justamente na simplicidade do cotidiano.
Logo nos primeiros minutos, o filme deixa claro que Helena (Carolina Dieckmann), André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello) viverão experiências completamente distintas diante da nova realidade. O marido e pai da família (Michel Melamed) parte rapidamente para uma viagem de trabalho, fazendo com que a adaptação à nova cidade recaia sobre os três. Embora compartilhem a mesma casa e as mesmas circunstâncias, cada um passa a trilhar um caminho próprio.
A fotografia reforça essa sensação desde o início. Os tons amarelados e frios ajudam a construir uma Brasília de 1986 que ainda parece um espaço em construção, tanto física quanto emocionalmente. A cidade deixa de ser apenas cenário para refletir o estado dos protagonistas: um lugar cheio de possibilidades, mas ainda sem identidade completamente definida.
O roteiro demonstra maturidade ao compreender que cada personagem vive seu próprio coming of age. Helena enfrenta o desafio de reconstruir sua rotina e sua identidade em um ambiente desconhecido; André experimenta as descobertas da adolescência e do primeiro amor; enquanto Dudu observa tudo com a curiosidade quase ilimitada da infância. São três jornadas paralelas que compartilham o mesmo ponto de partida, mas seguem direções completamente diferentes.

Essa estrutura é reforçada pelos cortes secos entre as histórias. Em vez de buscar grandes conexões dramáticas, a diretora alterna constantemente os pontos de vista, permitindo que cada narrativa encontre seu próprio ritmo. O resultado é um filme que respeita o tempo de seus personagens e entende que amadurecer acontece de formas diferentes para cada idade.
Outro aspecto interessante é a ausência de julgamentos. O longa evita transformar suas escolhas em lições de moral ou criar consequências exageradas para cada descoberta. As experiências surgem com naturalidade, como pequenos episódios da vida que, muitas vezes, parecem insignificantes naquele instante, mas acabam participando silenciosamente da formação de quem somos.
O forte clima oitentista também contribui para a atmosfera da obra. Mais do que figurinos e ambientação, o período influencia o comportamento dos personagens e a maneira como eles se relacionam com o mundo, tornando a narrativa ainda mais particular.
Se existe uma limitação, ela está justamente na proposta contemplativa. A ausência de grandes conflitos e o ritmo paciente podem causar certa sensação de distanciamento em quem espera uma narrativa mais convencional. Ainda assim, essa escolha dialoga diretamente com a intenção do filme: observar pessoas comuns vivendo transformações igualmente comuns, mas profundamente significativas.
Tem um filme que encontra beleza nos acontecimentos mais discretos. Ao acompanhar três personagens em fases completamente diferentes da vida, a diretora constrói um sensível retrato sobre crescimento, pertencimento e adaptação, lembrando que uma mesma mudança nunca transforma duas pessoas da mesma maneira.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério
Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio
Instagram: @naoparecemaseserio