Cinema, Crítica de Filme

Cansei de Ser Nerd | Crítica

Cansei de Ser Nerd mistura nostalgia universitária, suspense psicológico e humor geek em uma narrativa completamente maluca. 

Crédito: Mariana Vianna

Em Cansei de Ser Nerd, o clássico cenário de reencontro de ex-colegas de faculdade serve apenas como ponto de partida para uma narrativa que rapidamente abandona o caminho previsível e mergulha em situações cada vez mais estranhas, desconfortáveis e inesperadas. O filme até começa como aquelas tradicionais histórias sobre nostalgia, traumas do passado e reconexões entre antigos amigos, mas aos poucos revela uma proposta muito mais maluca, no melhor sentido possível.

Na trama, Caruso interpreta Aírton, um nerd assumido que, durante os tempos de faculdade, foi acusado injustamente pelo desaparecimento e suposto assassinato de uma colega de classe, chegando a passar dez dias preso. Duas décadas depois, ainda carregando inseguranças, paranoias e fantasmas emocionais daquele período, ele decide retornar ao reencontro da antiga turma. Para enfrentar a situação, convence o melhor amigo Ulisses, vivido por Pedro Benevides, a acompanhá-lo nessa jornada emocional cercada de memórias desconfortáveis, ressentimentos e situações absurdas.

O mais interessante no filme é justamente a maneira como ele brinca com as expectativas do espectador. Existe uma estrutura inicial bastante familiar: o personagem deslocado socialmente revisitando um passado traumático enquanto reencontra antigos colegas. Porém, conforme a narrativa avança, o roteiro vai lentamente conduzindo a história para caminhos muito mais estranhos, quase caóticos em alguns momentos, sem nunca perder completamente o controle da narrativa.

Mesmo tomando decisões bastante diferentes e apostando em situações improváveis, o filme mantém uma linha narrativa relativamente linear e compreensível. Essa talvez seja uma das maiores qualidades da direção: conseguir transformar uma história potencialmente bagunçada em algo que permanece minimamente organizado, mesmo quando abraça o exagero e o absurdo.

Caruso funciona muito bem como protagonista justamente porque não tenta esconder o lado mais desconfortável de Aírton. O personagem é um nerd completamente desajeitado, apaixonado, inseguro e socialmente travado, alguém que claramente nunca conseguiu superar certas feridas emocionais do passado. Existe uma honestidade muito grande na forma como o filme constrói esse protagonista, principalmente por não transformá-lo em uma caricatura exagerada do universo geek. 

A química entre Caruso e Pedro Benevides também é um dos grandes acertos do longa. Os dois funcionam como aquela dupla clássica de melhores amigos completamente diferentes, mas que conseguem se complementar em praticamente todas as cenas. Muitas vezes, é justamente a dinâmica entre eles que sustenta os momentos mais absurdos da narrativa, trazendo leveza e naturalidade mesmo quando o roteiro abraça situações mais surreais.

Crédito: Mariana Vianna

Visualmente, o filme também chama atenção. Grande parte da história se passa em ambientes de festa e balada, permitindo que a fotografia explore luzes neon, cores fortes e diferentes atmosferas dentro do mesmo espaço. O diretor aproveita bastante esse cenário para brincar com enquadramentos, mudanças de iluminação e composições visuais que ajudam a reforçar tanto o desconforto psicológico quanto o tom caótico da história. Em alguns momentos, o filme parece quase testar até onde consegue ir visualmente sem abandonar completamente sua identidade mais leve e divertida.

Outro ponto interessante é a enorme quantidade de referências ao universo nerd espalhadas pela narrativa. O filme é praticamente abarrotado de easter eggs, citações e pequenas homenagens ao mundo geek, mas acerta ao não transformar essas referências na única força da história. Elas funcionam mais como detalhes complementares para quem gosta desse universo do que como elementos essenciais para o entendimento da trama principal.

Ao mesmo tempo, “Cansei de Ser Nerd” também entende que sua proposta diferente naturalmente gera altos e baixos. Algumas surpresas funcionam muito bem e conseguem realmente causar impacto ou estranhamento positivo; outras parecem menos desenvolvidas ou exageradas demais dentro da construção narrativa. Ainda assim, o filme demonstra personalidade justamente por assumir riscos constantemente, mesmo sabendo que nem todas as escolhas vão funcionar para todos os espectadores.

Existe ainda uma tentativa interessante de trabalhar aspectos psicológicos dentro da jornada de Aírton, explorando inseguranças, culpa e traumas emocionais ligados ao passado do personagem. Porém, o longa nunca mergulha totalmente em algo pesado ou profundamente dramático. Pelo contrário: mantém uma atmosfera relativamente leve durante quase toda a duração, equilibrando mistério, humor desconfortável e situações absurdas sem abandonar o entretenimento.

“Cansei de Ser Nerd” talvez seja um daqueles filmes difíceis de definir exatamente dentro de um único gênero. Mistura comédia, suspense, nostalgia universitária, referências geek e até pequenos elementos psicológicos em uma narrativa que abraça o estranho o tempo inteiro. Mesmo irregular em alguns momentos, o longa encontra força justamente na sua personalidade excêntrica, na química dos protagonistas e na coragem de seguir por caminhos inesperados sem perder sua essência divertida.

Nota: 3/5

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