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| Doutor Gama | Crítica

Em um filme que busca contar a história de Luiz Gama, o diretor Jeferson De mostra que é possível falar de preconceito apenas com diálogos fortes e precisos. Confira a crítica completa.  

Doutor Gama é um filme biográfico sobre a vida do escritor, advogado, jornalista e abolicionista Luiz Gama, uma das figuras mais relevantes da história brasileira. Ele utilizou todo seu conhecimento sobre as leis e os tribunais para libertar mais de 500 escravos durante sua vida. Nascido de ventre livre, Gama foi vendido como escravo aos 10 anos para pagar dívidas de jogo de seu pai, um homem branco. Mesmo escravizado, ele conseguiu se alfabetizar, assim conquistou sua liberdade, se tornando um dos mais respeitados advogados de sua época.

Jeferson De (M8, Correndo Atrás e Bróder) sempre trouxe em seu filme a temática de racismo e preconceito, com uma abordagem mais atual. Em Doutor Gama não só ele tem que mostrar a história de Luiz Gama que é pouco conhecida, quando comparamos a outras figuras negras histórias, como ele tem que abordar um período onde o Brasil realiza a abolição de escravos de um forma recente, mas muitos escravos ainda estão em poder de seus ‘donos’.

Para trazer uma melhor abordagem para a história real, vemos Luiz em três épocas de sua vida. Criança (Pedro Guilherme), jovem (Angelo Fernandes) e adulto (César Mello), mas não espere momentos comuns para apenas mostrar o crescimento da personalidade do biografado. O roteiro de Luiz Antônio busca trazer momentos específicos em cada momento da vida de Gama, seja quando ele é vendido pelo pai, a busca pela liberdade e sua vida como o primeiro advogado negro.

Pedro Guilherme (Luiz Gama – criança): Crédito: Divulgação

Essa dinâmica foge do que esperamos de uma cinebiografia, por focar em pontos diferentes e mostrar o crescimento da personalidade do protagonista, de como ele não consegue ser como advogado, já que não sabe ler e escrever. Acompanhar este desenvolvimento mostra que é uma vida dura e sofrida. 

E quando pensamos em filmes que tenham escravos nesta época da história, automaticamente imaginamos um negro sendo açoitado, com as costas bem marcadas ou mostrando suas cicatrizes como um momento de superação. O diretor foge deste tipo de estereótipo para que a mensagem de Gama fique ainda mais forte e mais presente durante todo o filme. 

Angelo Fernandes (Luiz Gama – Jovem)

Gama é considerado um grande advogado, poeta e jornalista. E César Mello traz isso na sua incorporação, temos um fala calma, diálogos com ‘juridiquês’ com suas devidas explicações, e muita imposição intelectual para mostrar seu lado na história. Essa personalidade se mantém em boa parte do filme, até em momentos mais duros.

Claro que um filme com um advogado precisa de uma cena em um tribunal, aqui ele tem um caráter simbólico. É perceptível que a situação vivida pelo cliente de Gama faz parte do que a sociedade retratada e como ela pode ser aplicada para diversos momentos. Algo que era para ser apenas uma cena, se torna simbólico . 

inclusive essa cena do tribunal que tem a participação de Erom Cordeiro como o advogado Pedro são precisas, já que mostram dois pensamentos distintos da época escravocrata. De um que entende o negro como propriedade e outro que busca mostrar que somos todos humanos. E ter isso atrelado a simbolismos e diálogos fortes, fecham o filme com força e maestria.

César Mello (Luiz Gama – Adulto)

Doutor Gama consegue fugir dos clichês de uma cinebiografia  e dos longas sobre a escravatura, mostrando que diálogos fortes com um protagonismo sem exageros, não há necessidade de cenas violentas comuns em filmes deste tipo. E que este longa sirva para mais pessoas conhecerem a história de Luiz Gama. 

Nota: 4/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

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Instagram: @npmes

Bruno Simioni Cunha Ver tudo

Biólogo, estudante de jornalismo, cinéfilo e nerd que adora dividir conhecimento

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