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| Cine Marrocos | Crítica

Em um longa que consegue unir uma história real, amor ao cinema e um local que faz parte da história de São Paulo, Cine Marrocos chega os cinemas mostrando que há boas histórias até no caos.

O Cine Marrocos, é uma sala de cinema situada no piso térreo de um prédio de escritórios, de 12 andares, de mesmo nome, localizado na Rua Conselheiro Crispiniano, no centro da capital de São Paulo. Ele foi inaugurado em 1951 e encerrou suas atividades em 1994. O prédio foi desapropriado pela prefeitura de São Paulo em 2010, porém ele foi ocupado por brasileiros sem-teto, imigrantes latino-americanos e refugiados africanos. A reintegração de posse ocorreu em 2016.

Antes disto as pessoas que ali viviam receberam oficinas de teatro e resolvem criar, mesmo com a ameaça de despejo, trazer cenas de filmes que foram exibidos neste espaço, que recebeu a alcunha de ser a “O melhor e mais luxuoso cinema da América Latina” na inauguração.

O longa de Ricardo Calil (Narciso em Férias) traz muitas tramas sobre o mesmo lugar, pois ele usa o Cine Marrocos como um lugar para falar de moradia, escolhas políticas e luta de classes. Para justamente mostrar que têm muita luta aqui ele mostra até reportagens da época para nos localizar no tempo.

Crédito: Loiro Cunha

Mesmo com uma montagem linear, temos diversos momentos na tela, pois temos os ensaios, somos apresentados aos personagens reais e suas histórias e momentos que antecedem a reintegração. Temos aqui uma narrativa sólida que se sustenta pelas várias narrativas.

Mesmo com um pequeno viés político, o longa mostra força na transformação que ocorre com eles pela arte. Os moradores recebem cursos de atuação e teatro e vão construindo as cenas que irão refazer. O diretor usa estes momentos de montagem para explicar a histórias das pessoas que vivem ali.

Vemos tudo, dos ensaios corporais, dos exercícios de aquecimento, passagem de texto e cena final. E quando enfim vemos a cena final, há um cuidado para mostrar as duas cenas. A montagem final não mostra uma cena e depois sua versão, as duas são intercaladas, prestando atenção na continuidade e sua forma final.

Este cuidado não fica só na montagem final, no momento da filmagem temos um figurino que remete a cena original, além de um enquadramento que buscam trazer o máximo de similaridade ao material que vemos sendo representado. E fazer isso com um grupo de não atores torna tudo mais impressionante.

Mesmo que o filme tenha uma intenção mais teatral, ele sabe utilizar as perguntas para os personagens para mostrar o perfil dos moradores e seus anseios, desejos e sonhos para o futuro. E como cada um tem uma vontade diferente. E pensa diferente. E com toda essa carga, o filme resolve ainda reserva tempo para mostrar uma realidade política sobre os prédios abandonados e em uso em São Paulo.

Cine Marrocos é plural, com uma gama de histórias que em um primeiro momento não parece que não vão acontecer, já que ele traz a história do local e das pessoas, mas o resultado é plural e cheio de sentimentos. E as montagens das cenas tem uma riqueza de detalhes primorosos.

Nota: 4/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

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Twitter: PareceSerio

Bruno Simioni Cunha Ver tudo

Biólogo, estudante de jornalismo, cinéfilo e nerd que adora dividir conhecimento

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