Três narrativas, um único pesadelo compartilhado

Existe algo profundamente inquietante em histórias que transformam o cotidiano em ameaça, e Edifício Bonfim entende isso muito bem. Ao concentrar três narrativas distintas (Criatura, Trilha da Costa e Formando) dentro de um mesmo espaço físico, o filme cria mais do que um pano de fundo: o prédio vira personagem, testemunha e, em muitos momentos, cúmplice.
A estrutura fragmentada poderia facilmente comprometer o ritmo ou afastar o espectador, mas aqui ela funciona como um quebra-cabeça bem calculado. Cada capítulo tem identidade própria, seja no tom, no gênero ou na construção dos personagens, e ainda assim todos compartilham uma mesma sensação: a de que tem algo errado. E não é um “errado” explícito, escancarado. É um desconforto que cresce aos poucos, cena após cena, detalhe após detalhe.
O terror do filme não depende apenas de sustos fáceis ou violência gratuita. Ele se constrói muito mais na atmosfera. Existe uma tensão constante que atravessa as três histórias, seja nas investigações, nos comportamentos estranhos dos moradores ou na escalada de eventos macabros que começam a se infiltrar na rotina do prédio após uma aparentemente banal reunião de condomínio. E aqui está um dos grandes méritos do roteiro: transformar o trivial em gatilho para o caos.
As conexões entre as narrativas são sutis, e isso é um elogio. Edifício Bonfim não subestima quem está assistindo. Ele confia na atenção do espectador para perceber como os personagens transitam entre histórias, como os eventos se cruzam e como pequenas pistas ajudam a montar o todo. É aquele tipo de filme que recompensa quem se envolve de verdade.

No campo das atuações, o elenco segura bem a proposta multifacetada do projeto. Sandro Maquel, Gabi Petry e Vinícius Wester conseguem imprimir personalidade suficiente para que cada núcleo funcione de forma independente, ao mesmo tempo em que contribuem para a unidade do filme. Há uma naturalidade nas performances que ajuda a ancorar o absurdo crescente da narrativa.
Tecnicamente, o filme também acerta. A maquiagem merece destaque, principalmente na construção dos elementos mais perturbadores, nunca exagerada a ponto de quebrar a imersão, mas eficaz o suficiente para causar impacto. A edição em capítulos, como esperado, é bem marcada, mas não engessa o ritmo. Dá tempo para conhecer personagens, entender suas motivações e, principalmente, sentir o peso das escolhas que vão sendo feitas.
Talvez o ponto mais interessante de Edifício Bonfim seja justamente sua coragem em misturar gêneros. Ele transita entre o policial, o drama e até momentos de comédia, mas nunca abandona sua essência: o terror. E não um terror óbvio, mas aquele que se infiltra, que observa, que cresce, que contamina.
O filme deixa uma sensação incômoda, quase como se aquele prédio pudesse existir em qualquer lugar. E talvez esse seja o maior acerto: fazer com que o estranho pareça possível.
Nota: 3/5
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