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| Meu Querido Supermercado | Entrevista Tali Yankelevich

Confira a entrevista com Tali Yankelevich, diretora de ‘Meu Querido Supermercado’, filme que está sendo exibido no festival ‘É Tudo Verdade’ 2020.

1-) Obrigado pela entrevista Tali! Eu queria começar perguntando pela escolha dos personagens do longa, como foi o processo para chegar nestes nomes?

A escolha dos personagens foi feita através de um longo processo de pesquisa que começou ainda em 2014. Eu ia até as lojas, todas da mesma rede e passava o dia conversando com diversas pessoas. Mais tarde, comecei a ir com uma pesquisadora e juntas entrevistamos dezenas de trabalhadores das mais diversas áreas. Entretanto, do inicio do projeto até o financiamento da etapa de produção se passaram três anos. Nesse meio tempo, grande parte dos meus personagens haviam deixado a loja e foi necessário recomeçar a pesquisa, sendo que apenas dois personagens da pesquisa anterior ao financiamento ainda trabalhavam na loja e participaram do filme.

A escolha dentre as pessoas que foram entrevistadas acabou ocorrendo de maneira muito intuitiva e natural, embora trabalhosa. Uma das coisas que eu busquei foi encontrar pessoas que tivessem uma personalidade performática e que, portanto, se comportassem com naturalidade e desenvoltura frente às câmeras. Acima de tudo, buscava pessoas com um certo ar sonhador. Então, para mim, era muito importante entender aonde estava essa fronteira durante a pesquisa: dos devaneios, dos anseios e dos questionamentos desses entrevistados. O filme nasce dessa premissa: de investigar aquilo que se passa na cabeça das pessoas enquanto trabalham. Eu buscava pessoas que se mostravam muito a vontade para compartilhar esse outro mundo, escondido de todos que frequentam diariamente aquela loja.

2-) Um supermercado é baseado em simetria, em prateleiras (gôndolas) bem arrumadas, foi um convite para brincar como este tipo de plano?

A geografia do mercado sempre esteve muito conectada com o conceito e com a proposta original do filme. O cenário simétrico, cheio de repetições, era importante para criar o tom que eu buscava. Ao mesmo tempo em que, por um lado, os personagens falam a respeito de assuntos como “mecânica quântica” ou “vida após a morte”, por outro lado, existe um cenário limitado pelos longos corredores e pelas paredes brancas preenchidos por uma infinidade de produtos. Era essa idéia da convergência entre um mundo do trabalho e a fantasia, entre o material e o metafísico, tudo isso em um mesmo quadro. Essa justaposição era fundamental para o filme. E a idéia sempre foi poder brincar com isso visualmente, usar essa geografia de forma criativa para construir, ao longo da história, uma dança. Fazer com que aquele cenário tão rígido ganhasse vida, como que se tocado pelo universo emocional das histórias que se revelam ali, dentro daquele supermercado.

Confira a crítica do filme | Meu Querido Supermercado | Crítica

3-) O longa não tem uma história linear, como foi processo de montagem do filme? Já que ele tem mais as histórias dos funcionários do uma narrativa em si?

Realmente, um dos obstáculos para a construção de uma história, foi estar restrita a uma mesma locação. Além disso, a despeito de compartilharem o local de trabalho, na maioria dos casos os personagens não possuem sequer uma relação de proximidade entre si. Por isso foi importante olhar para o supermercado não como uma simples locação, mas como um universo a partir do qual as histórias se constroem. Além das personagens principais, existe uma boa parte do filme dedicada ao desenvolvimento desse mundo do mercado: dos ritmos, dos movimentos e dos sons que estão ali.

Quando começamos a montagem, trabalhei com o Marco Korodi, o montador do filme, em um estrutura no papel. Começamos selecionando falas e cenas para cada personagem e construimos uma narrativa emocional de cada um. Colocamos tudo em cartelas e depois disso tentamos ordená-las em uma jornada maior do filme. E foi essa a base para uma primeira estrutura.

Existe um percurso que começa na repetição do dia a dia e transita para uma desconstrução daquele espaço e daquela lógica. Algo como uma dissolução do espaço físico que dá lugar a um espaço imaterial. Dando luz ao que já estava presente desde sempre ali, mas que ninguém via. E, no meio disso, existem outros temas que vão sendo construídos: sonhos, vazios existenciais e emocionais, romances e mistérios, buscas transcendentais e a desconstrução paulatina daquela realidade.

4-) Falando sério agora (trocadilho não intencional), o que te levou a fazer um filme em um supermercado? Por que este local?

O que eu penso é: por que não um filme no supermercado? O que será que determina um local ou uma pessoa como interessantes para se fazer um filme? Sempre me faço essa pergunta. E acredito que, no fundo, o interessante não é o objeto que filmamos, mas como olhamos para ele.

Muitas pessoas me perguntavam isso quando ainda estava na fase de pesquisa e, para ser sincera, eu até gostava que elas tivessem essa dúvida. Isso me fazia querer ainda mais mostrar que era absolutamente possível fazer um filme que fosse dramaturgicamente forte e complexo em um lugar tão inesperado como o de um mercado. O filme explora a exuberância da vida que existe ali. O ser humano é sempre rico, aonde quer que ele esteja, não importa. Nós chegamos ao mundo com uma carga emocional imensa, com muitos questionamentos, e isso por si só já é forte. O que esse filme fez foi contrastar essas buscas frente aos aspectos banais repetitivos do nosso cotidiano.

5-) Não houve escolha de cargos altos do supermercado, como gerentes e diretores, e sim os colaboradores que estão mais no dia a dia do local. A intenção era essa o tempo todo? De não mostrar estes cargos mais altos?

A escolha sempre foi essa sim, por filmar dentro da loja, e não em áreas do administrativo. Isso por alguns motivos. O primeiro deles é puramente estético e visual. A loja é interessante visualmente: colorida, simétrica, cheia de máquinas e movimentos. Ela é cheia de elementos que podem ser usados de forma criativa e dramática dentro da história. O segundo aspecto é o da repetitividade. Me interessava ver a fisicalidade das ações que acontecem dentro da loja. Para o filme era importante mostrar a repetição do trabalho. Isso faz parte do universo desse documentário, do paralelo entre o repetitivo e o metafísico.

6-) E finalizando e agradecendo a paciência, como foi a rotina de gravação? Afinal supermercados tem uns dias que são bem difíceis.

A rotina foi ótima! Fizemos nossa última gravação em fevereiro de 2019 e sinto saudades até hoje de ir gravar lá. Em termos de logística respeitamos os horários e dias em que a loja nos permitiu ir filmar. Então evitávamos finais de semanas e sextas feiras, que era quando a loja estava mais cheia. Normalmente íamos filmar durante a semana, entre segunda e quinta feira. Gravar com a loja aberta foi muito tranquilo. Eu comecei a frequentar essas lojas em 2014, então já conhecia muita gente, todos os gerentes sabiam do filme. Isso é muito importante no universo do documentário, pois são filmes feitos ao longo de anos e construir relações com as pessoas com as quais você colabora é fundamental.

Todos foram muito solicitos a extremamente atenciosos com toda a equipe.

E passar tempo com essas pessoas que você vê no filme é simplesmente um imenso prazer! Acho que o filme de certa forma transmite isso. O bom humor do filme não está só no filme, ele estava presente também nas gravações.

Bruno Simioni Cunha Ver tudo

Biólogo, estudante de jornalismo, cinéfilo e nerd que adora dividir conhecimento

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