Entre humor ácido e conflitos familiares, o longa entrega um entretenimento sólido, ainda que previsível.

Histórias sobre disputas por herança costumam encontrar terreno fértil para misturar humor ácido, ambição e conflitos familiares. Manual Prático da Vingança Lucrativa parte justamente dessa combinação ao acompanhar Becket Redfellow (Glen Powell), um homem rejeitado ao nascer por sua família bilionária que decide recuperar aquilo que acredita ser seu por direito, mesmo que isso signifique eliminar todos os parentes que cruzem seu caminho.
Apesar da premissa soar exagerada, o filme opta por uma abordagem mais contida do que o esperado. Em vez de transformar sua narrativa em uma sucessão de mortes ou reviravoltas mirabolantes, o roteiro prefere construir cuidadosamente o protagonista e justificar cada uma de suas decisões. Essa escolha faz com que a jornada de Becket seja menos sobre a vingança em si e mais sobre as marcas deixadas por uma vida inteira de rejeição.
O roteiro trabalha de forma linear e bastante organizada. Não há grandes experimentações narrativas, mas existe um cuidado evidente em estabelecer os acontecimentos e permitir que o espectador compreenda as motivações do personagem principal. As relações familiares são apresentadas de maneira gradual, sem pressa, permitindo que os conflitos ganhem peso antes que a história avance para seus momentos mais decisivos.
Essa construção funciona principalmente graças à atuação de Glen Powell. O ator entrega um protagonista cheio de nuances, alternando momentos de frieza, ironia, vulnerabilidade e determinação com naturalidade. Sua versatilidade impede que Becket seja reduzido a um simples vingador, tornando fácil entender as razões que o levam a seguir por um caminho cada vez mais extremo.

Se o protagonista recebe um desenvolvimento consistente, o mesmo não pode ser dito do restante da família. Os personagens secundários acabam sendo retratados de maneira bastante caricata, com personalidades exageradas que, em alguns momentos, ultrapassam o limite da sátira e enfraquecem parte do impacto dramático da narrativa. Ainda que cada integrante seja facilmente identificável, falta profundidade para que suas presenças tenham o mesmo peso do personagem central.
Essa diferença de tratamento entre protagonista e coadjuvantes cria um pequeno desequilíbrio ao longo do filme. Enquanto Becket ganha múltiplas camadas, boa parte de seus familiares parece existir apenas para cumprir uma função específica dentro da história, tornando alguns conflitos menos envolventes do que poderiam ser.
Temos um ritmo agradável. O roteiro sabe conduzir seus acontecimentos sem atropelos, entrega uma narrativa clara e aposta mais na construção dos personagens do que em grandes reviravoltas. As poucas surpresas ao longo do caminho não chegam a comprometer a experiência, mas também fazem com que o filme dificilmente saia do terreno do previsível.
O longa funciona como um entretenimento competente. Sem reinventar o gênero e sem arriscar grandes mudanças de rumo, encontra seu maior mérito na interpretação de Glen Powell e na forma cuidadosa como desenvolve seu protagonista. É uma história de vingança eficiente, ainda que limitada por personagens secundários pouco inspirados e por um roteiro que prefere jogar no seguro.
*Filme disponível no Prime Video
Nota: 3/5
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