Misturando cangaço, viagem no tempo e cultura pop, Cordélicos entrega uma aventura divertida e genuinamente brasileira para toda a família.

A animação brasileira tem demonstrado cada vez mais sua capacidade de contar histórias originais sem abrir mão da identidade cultural do país. Em Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste, a diretora Ale MacHaddo encontra justamente esse equilíbrio ao criar uma aventura que mistura cangaço, ficção científica, viagem no tempo e cultura pop em uma narrativa divertida e acessível para todas as idades.
A premissa já chama atenção por sua criatividade. Um grupo de cangaceiros acaba se envolvendo com os planos de uma máquina do tempo e se vê preso em uma jornada que conecta passado e futuro enquanto tenta escapar do temido Cabra da Peste. O que poderia facilmente se transformar em uma trama confusa acaba funcionando muito bem graças a um roteiro que compreende seus personagens e sabe exatamente como utilizar cada um deles ao longo da narrativa.
Um dos maiores acertos do filme está na construção de sua equipe principal. Os Cordélicos possuem personalidades distintas e complementares, permitindo que cada integrante tenha seu momento de destaque. A diretora demonstra grande controle sobre esse conjunto de personagens, equilibrando humor, ação e emoção sem deixar ninguém de lado. Isso faz com que o grupo pareça realmente unido, fortalecendo a conexão do público com a aventura.
O elenco de vozes também merece reconhecimento. Bruno Garcia, Raissa Xavier, Tadeu Mello, Marcelo Mansfield, Carol Góes e Felipe Mazzoni conseguem imprimir características únicas aos seus personagens, tornando-os facilmente identificáveis. Cada dublador encontra uma maneira própria de deixar sua marca na produção, enriquecendo ainda mais a experiência. Até mesmo a participação especial de Falcão surge como um complemento divertido ao universo criado pelo filme.

Outro ponto positivo é a forma como o sotaque nordestino é utilizado. Em vez de servir apenas como elemento cômico ou estereotipado, ele faz parte da identidade dos personagens e da ambientação da história, ajudando a valorizar a cultura regional sem caricaturas exageradas. É um detalhe importante que reforça a autenticidade da produção.
Visualmente, a animação também encontra soluções inteligentes. O uso das cores ajuda a diferenciar momentos e ambientes da narrativa, especialmente quando a trama transita entre diferentes períodos temporais. Os cenários apresentam elementos que remetem ao sertão nordestino ao mesmo tempo em que incorporam aspectos da ficção científica, criando uma identidade visual própria e bastante interessante.
As diversas referências à cultura pop e ao universo nerd aparecem de forma natural ao longo da aventura. Em vez de depender exclusivamente dessas citações para gerar humor ou engajamento, o filme as utiliza como complementos que enriquecem a experiência sem comprometer a história principal. Isso torna a obra divertida tanto para o público mais jovem quanto para os espectadores que gostam de identificar homenagens espalhadas pela narrativa.

O vilão Cabra da Peste também recebe atenção especial do roteiro. Sua presença vai além da simples função de antagonista, ganhando desenvolvimento suficiente para justificar suas ações e representar uma ameaça constante aos protagonistas. Essa construção ajuda a manter a tensão da história e dá mais peso aos conflitos apresentados.
Com um ritmo eficiente, personagens carismáticos e uma narrativa que consegue conectar passado e futuro de forma surpreendentemente harmoniosa, Cordélicos – A Origem do Cabra da Peste mostra a força da animação nacional quando aposta em suas próprias referências culturais. É uma aventura divertida, bem-humorada e cheia de personalidade, que valoriza suas raízes enquanto entrega entretenimento para toda a família.
Nota: 4/5
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