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Ela é Pior Que Eu | Entrevista com Clarice Falcão

Mas depois de cinco minutos a gente esquecia e virava essa coisa de uma ouvir a outra de verdade, de se interessar pelo ponto de vista, mesmo que fosse pra discordar ou rir do absurdo” comenta Clarice Falcão em entrevista sobre o podcast Ela é Pior Que Eu novo formato do Porta dos Fundos, que tem elenco 100% feminino e já está disponível para ver ou ouvir.

Porta dos Fundos estreia, no dia 28 de abril, “Ela É Pior Que Eu”, primeiro formato idealizado e protagonizado por um elenco 100% feminino na história da produtora. Apresentado por Clarice Falcão e Bella Camero, ao lado de suas mães, o programa será exibido no canal fast PortaTV, no Spotify e também no YouTube do grupo. E o site conversou com uma participantes, a atriz/cantora Clarice Falcão, onde ela comenta sobre o projeto e formato, as relações com as mães, gerações e os contrastes de criações. Leia a entrevista abaixo.

Bruno: O programa parece simples, mas é muito sustentado pela escuta. Foi difícil encontrar esse equilíbrio entre naturalidade e construção narrativa?

Clarice: Cara, é um equilíbrio super delicado, né? Porque se você “constrói” demais, vira um roteiro de esquete e perde a alma. E se você deixa solto demais, vira só um jantar de família em que ninguém entende Mas depois de cinco minutos a gente esquecia e virava essa coisa de uma ouvir a outra de verdade, de se interessar pelo ponto de vista, mesmo que fosse pra discordar ou rir do absurdo. nada do que tá acontecendo. Mas a verdade é que, como a gente se conhece há 20 anos… Eu conheci a Bella com 17! A gente tem uma química que não se fabrica. O desafio era mais a gente lembrar que tinha uma câmera ali, sabe? É uma naturalidade que vem da intimidade mesmo.

Bruno: Em que momento da gravação vocês se surpreenderam genuinamente com algo que suas mães disseram?

Clarice: Sempre tem esse momento, né? Porque a gente acha que conhece a mãe da gente de cabo a rabo, mas quando você coloca ela num ambiente de trabalho, as coisas mudam. Teve um episódio sobre linguagem e outro sobre vergonha que eu fiquei tipo: “Gente, de onde veio isso?”. Elas trazem visões que a gente não espera. O que mais me surpreende é a liberdade delas de serem quem são, sem esse filtro que a nossa geração às vezes tem de “ai, será que posso falar isso?”. Elas falam e pronto. É um choque de realidade maravilhoso.

Bruno: Revisitar histórias da infância mudou a forma como vocês enxergam a própria criação hoje?

Clarice: Total. Quando a gente é criança, a gente acha que nossos pais são super-heróis ou vilões, né? Não tem meio termo. Revisitar essas histórias agora, com 36 anos, me faz olhar pra minha mãe e ver uma mulher que tava ali tentando, criando, errando e acertando, como eu. Eu sempre digo que sou muito privilegiada de ter tido os pais que tive, mas ver outro lado dessas histórias na conversa do programa humaniza muito. Você entende que a sua criação foi fruto de uma época, de uma cabeça específica, e isso dá uma paz, sabe? Um “ah, então foi por isso”.

Bruno: O projeto mostra claramente diferenças de geração. O que mais chocou vocês nesse contraste?

Clarice: O que mais choca é ver como a gente às vezes é muito mais “travada” ou preocupada com certas pautas do que elas. Ou o contrário! Às vezes elas têm umas visões que a gente fica: “Mãe, não pode mais falar assim!”. Mas o contraste mais legal é a relação com o erro e com a exposição. Ver como a Dida e a minha mãe lidam com o que é “relevante” é muito diferente da nossa pressa da internet. É um tempo diferente de pensar, sabe? E ver onde esses tempos se cruzam é o que faz o programa ser o que é.

Bruno: O quanto dessas conversas foi guiado e o quanto simplesmente aconteceu?

Clarice: Tinha um norte, claro. A gente escolhia temas que fossem da natureza humana, tipo vergonha, comunicação… coisas que todo mundo sente. Mas o “recheio” era totalmente o que acontecia ali na hora. A gente jamais conseguiria roteirizar a minha mãe me expondo de algum jeito ou a gente tendo um ataque de riso por causa de uma bobeira da Dida. A gente guiava o barco pro meio do mar, mas quem soprava o vento era a conversa mesmo.

Bruno: Houve algum momento em que vocês pensaram: “isso não vai entrar”, mas acabou ficando?

Clarice: Nossa, direto! Tem momentos que a gente fala “ai meu Deus, isso é muito íntimo” ou “isso tá muito caótico”. Mas o Porta tem essa coragem, né? E o projeto pede isso. Se a gente tirasse as partes que pareciam “erradas”, a gente ia tirar a melhor parte do programa, que é justamente essa falta de filtro, essa coisa meio “pior que eu” mesmo. O que a gente achava que ia ser cortado geralmente era o que dava o tom mais verdadeiro da coisa.

Bruno: Depois do projeto, o que mudou na forma como vocês se veem como filhas?

Clarice: Acho que eu fiquei mais… curiosa. Antes eu via minha mãe muito no papel de “mãe”, aquele porto seguro. Agora eu vejo ela muito como uma artista, uma colega, uma mulher que tem muita coisa pra dizer que não tem nada a ver comigo. Isso me tira um peso, sabe? De não precisar ser o centro do mundo dela, e ela não ser o centro do meu. A gente se encontra num lugar de admiração mútua que é muito mais leve. Saio desse projeto muito mais fã dela, se é que isso é possível.

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