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Game Mortal | Crítica

Um terror introspectivo sobre mente, isolamento e controle, que quase alcança o que propõe.

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Em Game Mortal, acompanhamos Hana (Sasha Luss), uma jogadora e testadora de games, que vive reclusa em seu apartamento, isolada do mundo por causa da agorafobia – condição que a impede de sair de casa sem enfrentar crises intensas de ansiedade. O filme explora essa limitação com sensibilidade, transformando a rotina silenciosa e claustrofóbica da personagem em uma experiência próxima e quase palpável. O público entende seu isolamento, sente o peso do tempo e compreende como os jogos se tornam não apenas uma fonte de renda, mas um refúgio psicológico. É dentro desse espaço restrito que surge sua única conexão humana: a vizinha Jen (Alexis Ren), uma presença que representa o elo frágil entre Hana e o mundo exterior.

Ao aceitar participar de um teste de um novo jogo experimental, controlado apenas pela mente, Hana mergulha em uma experiência que mistura tecnologia, percepção e controle. O ritmo propositalmente lento, que em muitos momentos parece contemplativo, é fundamental para que o espectador acompanhe as sutis transformações da protagonista, desde a curiosidade inicial até o desconforto crescente que se instala à medida que o jogo passa a interferir na sua percepção do real. O apartamento, filmado como uma extensão psicológica da personagem, ganha vida própria: cada luz acesa, cada sombra projetada e cada reflexo na tela do computador parecem pulsar junto com o estado mental de Hana.

A fotografia do filme é um dos elementos que mais ajudam a criar essa sensação de confinamento. A alternância entre luz natural e artificial reforça o passar dos dias sem que seja necessário mostrá-lo explicitamente. É um tempo que se dilui tanto para ela quanto para quem assiste. A direção de James Croke acerta ao construir esse universo visual quase hipnótico, que não busca o susto, mas a inquietação silenciosa. É um tipo de terror que cresce por dentro, e que depende do quanto o espectador está disposto a se deixar afetar pela solidão e pelo controle absoluto de uma máquina sobre a mente humana.

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Conforme Hana começa a dominar o jogo, o filme passa a explorar a relação entre poder e vulnerabilidade. O que a princípio parece libertador, controlar tudo pela força da mente, logo se transforma em uma prisão mais profunda, invisível e emocional. A personagem começa a perder a noção de tempo, de corpo e de fronteira entre o que é jogo e o que é vida. Essa deterioração é mostrada com um cuidado quase sensorial, como se cada pequeno gesto, respiração e olhar traduzem um mergulho mais fundo em algo irreversível. 

Entretanto, o longa falha quando tenta expandir esse conflito para o terreno do sobrenatural. As visões de Hana, especialmente as que envolvem sua mãe, não conseguem alcançar o impacto emocional ou simbólico que mereciam. São cenas que parecem prometer muito, mas entregam pouco, e acabam quebrando o ritmo emocional do filme. O terror psicológico, que vinha sendo construído com delicadeza, se dilui em imagens pouco memoráveis e que não reforçam o drama da personagem.

As atuações seguem uma linha contida, coerente com o tom do filme, mas acabam prejudicadas por um roteiro que não oferece fôlego aos arcos dramáticos. Sasha entrega um bom retrato da solidão e da confusão mental, enquanto Alexis, mesmo com menos tempo de tela, traz leveza e afeto. Mas o que poderia ser uma relação emocionalmente poderosa entre duas mulheres presas em mundos distintos acaba se tornando apenas uma nota de apoio. Faltou ousadia em explorar o vínculo, o contraste entre o dentro e o fora, e a força da amizade como resistência à tecnologia e ao medo.

Game Mortal é uma experiência que conquista pela atmosfera e pela proposta, mas se perde na hora de extrair o melhor de seu próprio conceito. Há boas ideias sobre o impacto da mente no digital, sobre o controle e o vazio contemporâneo, mas o filme hesita em se aprofundar nelas. Fica a sensação de que acompanhamos um ensaio de algo maior, como um game que não carrega.

Nota: 1/5

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