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| Homem Onça | Crítica

Em um filme ambientado nos anos 90, mas parece 2021. Homem Onça de Vinicius Reis usa toda a potência de Chico Diaz para mostrar como o Brasil envelheceu mal. Confira a crítica completa.

Pedro (Chico Diaz) trabalha em uma grande empresa estatal, que em breve será privatizada. Pressionado por um cruel processo de reestruturação, Pedro tem que demitir sua equipe e antecipar a sua aposentadoria. Aposentado e com uma doença na pele, ele decide se separar da família e se mudar para Barbosa, sua pequena cidade natal, no interior distante.

As privatizações de empresas estatais começaram no governo Fernando Henrique Cardoso, com a promessa de um menor gasto da máquina pública e um melhor serviço oferecido à população. As duas promessas nunca se concretizaram e o Brasil continua seguindo neste caminho. Ao invés de ser uma obra contando uma parte da história, ela mostra como o Brasil apenas repete o que sempre fez, não importando o governo.

Vinicius mostra a narrativa pelo olhar interno, sem precisar de um elemento político ou algo que mostre o que ocorre fora da empresa, vamos aos poucos entendendo o processo que Pedro passou, sua decisão de morar em outro lugar depois da aposentadoria forçada. Mesmo quando vemos a mistura do presente e passado do protagonista, tudo ocorre de uma forma natural e fluída.

O roteiro busca trazer o lado humano dessa história, do que se vê sem perceptivas depois de uma decisão que não é sua, e todo o trabalho de uma vida, não possui valor e você é tratado como um número. Trazer este olhar mais imersivo mostra como apenas quem viveu o processo de dentro pode comentar com propriedade o assunto. 

Mostrar também como as empresas podem ser tratadas como capital disponível e não como algo a ser trabalho ou buscar uma integração melhor com o governo. O longa traz uma narrativa que impressiona justamente por mostrar que decisões como essa impactam diversos setores e principalmente, famílias.

Chico Diaz traz a Pedro uma diversidade de comportamentos onde percebemos toda a mudança de personalidade que ele sofre durante os acontecimentos. E como acabamos tendo empatia, sofrimento e discórdia, já que claramente os eventos mudaram sua percepção de vida.  

Pedro não possui controle sobre o que ocorre, como se ele fosse apenas uma peça esperando ser rejeitada, com isso ele parte para um jornada de aceitação que permeia uma parte do filme, para que ele entenda que ele agora terá que fazer escolhas sobre sua própria vida contra vontade, mostra um lado de aceitação que temos que ter na nossa vida em alguns momentos, que as decisões difíceis aparecem. 

Há claro uma abordagem para mostrar a reestruturação da empresa, que vemos apenas enquanto Pedro está lá dentro, após isso deixamos de entender o que houve. O roteiro supre essa possível falta mostrando a conexão do protagonista com a natureza, mesmo com a simbologia criada para as manchas em sua pele, a intenção com estas cenas é mostrar a integração dele com a natureza e sua escolha de onde viver depois que tudo passou.

A montagem final do filme aproveitou as duas linhas do tempo (Futuro e passado) para uma construção de narrativa buscando a linearidade. A transição entre estes dois pontos são suaves e mudam conforme a história principal avança. Elas se complementam de alguma forma, de entendermos como cada informação ocorreu e como ocorreu, mesmo o corte entre elas é mais ríspido, há uma motivo ou explicação clara para isso.

O longa não pensa em denunciar, ou dizer quem está certo ou errado, ele noticia os fatos, mostra como o processo ocorre, de uma forma didática e pessoal, para que o espectador tire as suas conclusões. E como estamos vivendo isso novamente com os correios.

Homem Onça traz uma narrativa atual com uma grande atuação de Chico Diaz, que mostra que o Brasil de hoje não é diferente do Brasil do passado.

Nota: 4/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

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Bruno Simioni Cunha Ver tudo

Biólogo, estudante de jornalismo, cinéfilo e nerd que adora dividir conhecimento

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