Cinema, Crítica de Filme

Copan | Crítica

Um documentário melancólico sobre rotina, política e convivência dentro de um dos prédios mais emblemáticos do país. 

Copan é daqueles documentários que não parecem interessados em criar uma narrativa tradicional ou conduzir o espectador pela mão. Carine Wallauer prefere observar. E talvez seja justamente nessa observação paciente, silenciosa e quase melancólica que o filme encontra sua maior força.

No coração de São Paulo, o gigantesco edifício projetado por Oscar Niemeyer deixa de ser apenas um prédio e passa a funcionar como um organismo vivo. O documentário usa o Copan quase como um personagem central, respirando através de suas vozes, corredores, apartamentos, elevadores, problemas estruturais, conversas íntimas e rotinas completamente diferentes entre si.

A câmera de Wallauer frequentemente permanece parada, próxima dos moradores, permitindo que os ambientes e as pessoas simplesmente existam diante dela sem parecerem preocupados com a presença do documentário. Existe algo muito natural na maneira como tudo é registrado. O filme não tenta forçar emoção, criar grandes discursos ou transformar seus personagens em figuras cinematográficas maiores do que a vida. Pelo contrário: o impacto surge justamente da simplicidade cotidiana.

E é curioso como “Copan” encontra grandeza nesses pequenos momentos. Conversas aparentemente banais, discussões internas do condomínio, reclamações, silêncios, olhares cansados e até detalhes íntimos acabam compondo um retrato muito específico não apenas daquele prédio, mas também de um Brasil contemporâneo dividido, desgastado e constantemente em tensão.

A disputa pela sindicância funciona quase como um microcosmo político. O síndico que ocupa o cargo há décadas, as disputas de poder internas e as diferentes opiniões dos moradores refletem diretamente a polarização política que acontece fora das paredes do edifício durante a eleição presidencial entre Lula e Jair Bolsonaro. Mas o documentário nunca parece interessado em transformar isso em debate explícito. A política surge muito mais como ambiente, como ruído constante que atravessa corredores, conversas e relações.

Existe até um leve toque de ficção científica na maneira como o prédio é filmado. Não no sentido visual tradicional do gênero, mas na sensação de isolamento urbano, gigantismo concreto e funcionamento interno quase mecânico daquele espaço. O Copan parece uma cidade própria, vivendo suas próprias regras, conflitos e ciclos.

A linearidade do documentário praticamente existe apenas pelos acontecimentos políticos externos. No restante do tempo, o filme se permite vagar por histórias, pessoas e situações sem necessariamente buscar uma estrutura narrativa rígida. Estamos apenas observando vidas acontecendo. E isso faz com que o longa tenha uma sensação muito íntima, quase voyeurística em alguns momentos.

Carine Wallauer também entende muito bem o peso visual do edifício. As vistas de São Paulo, os corredores intermináveis, os apartamentos pequenos e as áreas comuns ajudam a reforçar essa mistura constante entre solidão e convivência coletiva. O prédio está sempre cheio, mas muitas vezes os personagens parecem profundamente isolados.

“Copan” talvez não seja um documentário preocupado em entregar respostas ou conclusões definitivas sobre o Brasil, política ou sociedade. Seu interesse parece muito mais ligado ao registro humano, ao desgaste das relações e à maneira como pessoas diferentes tentam coexistir dentro do mesmo espaço enquanto o mundo ao redor parece cada vez mais instável.

O filme funciona como um retrato local, íntimo e profundamente melancólico de um país visto através das janelas, corredores e vozes de um único edifício.

Nota: 4/5

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