Em um filme inventivo Chico Ventana Também Queria Ter Um Submarino explora a mente do espectador em juntar peças e traz um longa cheio de nuances. Confira a crítica completa.
A bordo de um navio de cruzeiro que atravessa o sul da América Latina, um jovem marinheiro descobre uma porta que misteriosamente leva a um apartamento em Montevidéu. Enquanto isso, a milhares de quilômetros de distância, perto de uma pequena aldeia rural nas Filipinas, um grupo de camponeses encontra uma antiga cabana abandonada na colina.
O longa de Alex Piperno parece um longa de ficção científica quando lemos sua sinopse, afinal portais que levam de um lugar para o outro são comuns, mas aqui neste filme não temos essa explicação. Afinal se uma porta levasse a um local totalmente onde não há riscos, não necessitamos de uma grande explicação ou como tudo ocorreu.
O roteiro simplesmente mostra isso e quais as conexões que cada porta faz e pronto. Sem um cientista, sem um conceito de buraco de minhoca ou alguém que mexeu na física. Temos aqui o foco nas relações que são construídas a partir disso.
E sem nada, vamos conhecendo os personagens a partir de suas viagens, Chico Ventana (Daniel Quiroga) que se depara dentro do apartamento de Elisa (Inés Bortagaray) ao tentar matar trabalho e Noli (Noli Tobol) que busca entender uma misteriosa construção na sua vila.
O longa foca nas relações e não nas viagens, por isso temos núcleos bem definidos que vão crescendo ao longo da narrativa. Principalmente por termos três personagens tão distintos. A fotografia escolhida também busca trazer essa diferença entre os lugares, temos uma iluminação baixa no cruzeiro e muita luz natural no apartamento, por exemplo.
O fato de deixar o espectador no ‘escuro’ é o grande trunfo de Chico Ventana, pois como não sabemos de como as portas aparecerem ou se ligam, acabamos mantendo o foco nos diálogos, na construção da história e no misticismo criado pela vila.
A montagem final aumenta este sentimento, pois não sabemos como o tempo passa em todos os lugares, se a viagem causa danos a longo prazo e principalmente, da vila na Filipinas não abrir a porta e explorar o local. Os elementos são inseridos de uma forma tão orgânica que mal percebemos o tempo passando entre uma viagem e outra.
A fotografia se adequa ao ambiente, mas a direção não. Temos muitos planos abertos onde sempre podemos observar a porta, como se algo fosse passar por ela a qualquer momento, e acabamos inconscientemente mantendo o olhar nela, enquanto nada ocorre na cena em si. Não dá para falar em uma atmosfera de terror ou de sobrenatural, mas uma ideia simples muda a forma que assistimos a cena.
A história até busca conectar as narrativas, mas o longa é interessante quando não o faz, principalmente quando imaginamos que o núcleo das Filipinas é algo antes de tudo ou a primeira porta, por isso a religião envolvida, quando tudo se une a mística se perde, os três pontos se mostram unidos de alguma forma, o que em nenhum momento se parecia possível. Nada que muda o grande filme que é Chico Ventana Também Queria Ter Um Submarino.
Nota: 3/5
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