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| Colônia | Review

Colônia, nova produção do Canal Brasil, mostra um Brasil que queremos esquecer e como a vida humana era subjugada a nada, dependendo do suposto diagnostico médico. A série está em exibição no Globoplay e no Canal Brasil

Elisa (Fernanda Marques) em Colônia

A produção conta a história de Elisa (Fernanda Marques), uma jovem de vinte anos que chega ao Hospício Colônia no começo dos anos setenta. Ela está grávida de quatro meses de sua grande paixão juvenil e foi enviada para o local pelo pai, Júlio (Henrique Schafer), que fica enfurecido ao descobrir que a filha arruinara seus projetos de casá-la com um rico vizinho de fazendas.

Elisa logo se depara com a verdadeira loucura ali presente, mas rapidamente consegue descobrir que, assim como ela, muitas outras pessoas sem nenhum tipo de diagnóstico de doença mental estão internadas: o alcoólatra Raimundo (Bukassa Kabengele), a prostituta Valeska (Andréia Horta), o homossexual Gilberto (Arlindo Lopes) e dona Wanda (Rejane Faria), todos para lá enviados por serem considerados incômodos para a sociedade. Elisa se aproxima destas pessoas e cria laços de amizade fundamentais para sobreviver, da maneira mais sã possível, a uma vida de abusos e violência diária.

A série é livremente baseada no livro Holocausto Brasileiro da jornalista Daniela Arbex, mas não se engane pelo ‘livremente’ colocada pela produção, já que muitas das histórias contada no livro estão nos personagens mostrados nos 10 episódios da série, a grande diferença fica apenas pelo protagonismo de Fernanda Marques e o livro fica mais aberto aos relatos do que ocorreu no local.

Gilberto (Arlindo Lopes) e Elisa (Fernanda Marques) em Colônia. Crédito: Canal Brasil

Conforme vamos conhecendo os personagens Raimundo (Bukassa Kabengele), a prostituta Valeska (Andréia Horta), o homossexual Gilberto (Arlindo Lopes), cura gay desde essa época, e dona Wanda (Rejane Faria) e a própria Elisa fica claro que estes personagens incorporam o que é descrito no livro, não só nas suas atitudes, mas como reagem ao estarem no Colônia e principalmente com era estar um local como este.

A série busca um retrato mais pessoal, e traz os personagens coadjuvantes para adição de conteúdos sobre o lugar, para isso traz a protagonista interagindo com eles e vamos assim conhecendo suas histórias e como foram para ali. Essas mudanças apenas não funcionam com núcleo hospitalar, se é possível usar essa palavra, que acaba sendo um dos núcleos da narrativa.

Os enfermeiros feitos por Augusto Madeira e Naruna Costa ocorre de uma forma independente da história principal para justamente trazer o lado dos que ‘tratam’ os pacientes que estão ali. E até neste núcleo temos as próprias narrativas e os próprios pontos de vista da mesma história. De como uns não ligam pro que realizam e outros que tentam entender como os pacientes foram colocados ali.

Cena de Colônia. Crédito: Canal Brasil

Os 10 episódios além de trazer um ponto de vista mais centrado, buscam mostrar os horrores do local, de uma forma mais leve que o livro, como a má alimentação, os que dormem ao relento nas noites frias, os que recebem choques elétricos para se ‘acalmarem’ e pacientes que estão fora de si que andam pelos corredores nus e totalmente fora da realidade.

A série dirigida por André Ristum (A Voz do Silêncio) tem uma fotografia em preto e branco muito caraterística das imagens reais do local original, e está preocupado em trazer a história com proximidade, seja com planos próximos e diálogos fortes ou manter boa parte da história dentro do local para deixar o ar de confinamento ainda maior.

Por ser uma narrativa centralizada temos mais tempo de tela para a protagonista, mas há um sentido de desumanização da personagem, já que não sabemos quando tempo se passa entre um episódio e outro, e como ela sofrendo de acordo com que ocorre com ela e seus parceiros. A transformação de Elisa ao longo dos 10 episódios é inegável e como ela se transforma fisicamente e mentalmente durante o período que está no Colônia.

Valeska (Andréia Horta) em Colônia. Crédito: Canal Brasil

Essa transformação é o grande destaque nos episódios, personificada por Elisa, ela se transforma a cada momento, e vamos percebemos suas alterações mentais do caos que é o Colônia. Sua transformação é mais clara e a mais dura de todas. Faltou apenas uma grande mudança nos outros personagens.

Ao assistir a série se imagina que em algum momento haverá algum momento de humanização daqueles que ‘cuidam’ dos pacientes, o roteiro até trás estas reflexões, mas elas ficam restritas a uma das enfermeiras (Naruna Costa), mas mal sofrem alterações na trama desenvolvida.

Uma história como essa precisa ser contada e mostrada, para que momentos degradantes do Brasil sejam lembrados, e percebemos de como há pessoas que não tratam os outros como o mínimo respeito. E como o Colônia se tornou um depósito de seres humanos indigestos para a sociedade da época. Temos uma história dura e concisa, porém necessária.

Nota: 5/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

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Twitter: @PareceSerio

Bruno Simioni Cunha Ver tudo

Biólogo, estudante de jornalismo, cinéfilo e nerd que adora dividir conhecimento

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