Cinema, Crítica de Filme

Cheiro de Diesel | Crítica

O impacto das operações militares é visto por quem vive dentro delas.

Cheiro de Diesel, dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, é um documentário que não pede licença, ele invade, ocupa e permanece. Mais do que relatar eventos, o filme se constrói como um registro direto de um período marcado pela presença das Forças Armadas nas favelas do Rio de Janeiro, durante as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Mas o que poderia ser apenas um recorte histórico se transforma em algo muito mais urgente: um retrato vivo dos impactos cotidianos dessa militarização na vida de quem está dentro dela.

A força do documentário começa justamente na sua proximidade. A câmera nunca observa de longe, ela está colada aos corpos, às vozes e aos espaços. Seja por meio de registros feitos por moradores ou imagens de imprensa, o filme constrói uma sensação constante de imersão, quase claustrofóbica. Não há distanciamento confortável para o espectador: estamos dentro das vielas, das casas, dos olhares tensos que acompanham a passagem de tanques e soldados armados. Essa escolha estética não apenas aproxima, mas também reforça a ideia de que aquilo não é exceção, é a rotina dos moradores sendo invadidas. 

Existe um contraste visual e simbólico muito forte ao longo do filme. De um lado, a presença ostensiva do Exército, com sua estrutura de guerra, seus fuzis e veículos blindados. Do outro, o cotidiano da favela, crianças, moradores, ruas que seguem tentando existir apesar da ocupação. Esse choque entre o “ambiente comum” e a lógica militar cria imagens potentes, que falam por si só, sem necessidade de dramatização artificial. O absurdo da situação emerge justamente dessa convivência forçada entre dois mundos incompatíveis.

A condução narrativa aposta em uma linearidade que favorece o entendimento dos fatos, mas sem abrir mão da carga emocional. Os relatos dos moradores são diretos, duros e precisos, compondo um mosaico de experiências marcadas por medo, tensão e, principalmente, trauma. Não há espaço para suavizações: o documentário se compromete com a verdade desses depoimentos, permitindo que eles conduzam a narrativa com uma honestidade que incomoda. 

Dentro dessa estrutura, a presença de Gizele Martins se torna um dos pilares do filme. Mais do que diretora, ela também se coloca como personagem, trazendo para o centro da narrativa o papel do jornalismo periférico. Sua atuação evidencia não apenas a importância de registrar essas histórias, mas também o custo pessoal de fazê-lo. O documentário ganha, então, uma camada adicional: não se trata apenas de mostrar a violência, mas de revelar o impacto de narrá-la, de viver entre o compromisso profissional e as consequências íntimas desse trabalho.

O olhar das diretoras é marcadamente jornalístico, mas nunca frio. Há precisão na forma como os acontecimentos são apresentados, na organização dos relatos e na construção do discurso. Ao mesmo tempo, existe uma sensibilidade clara na escolha dos momentos, nos silêncios e nas imagens que permanecem mais do que deveriam. É um equilíbrio delicado entre informação e experiência, entre mostrar e fazer sentir.

Cheiro de Diesel também se destaca por não buscar respostas fáceis. Ele não organiza a realidade em estruturas simplificadas, nem oferece conclusões reconfortantes. Pelo contrário, o filme expõe feridas abertas, deixando que o espectador lide com elas sem mediação. Essa escolha reforça seu caráter político, mas também humano: estamos diante de vidas impactadas por decisões que vêm de cima, mas que reverberam de forma brutal na base.

O documentário se estabelece como um registro necessário. Um filme que documenta, denuncia e preserva memórias que muitas vezes são ignoradas ou apagadas. Mais do que assistir, o longa exige presença e, acima de tudo, disposição para encarar uma realidade que insiste em não ser vista.

Nota: 4/5

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