Cinema, Crítica de Filme

Tatame | Crítica

Quando o esporte deixa de ser competição e vira campo de batalha político.

Crédito: Kajá Filmes

Há um momento em Tatame em que a luta deixa de ser contra a adversária e passa a ser contra tudo o que está fora do quadro e, talvez mais importante, dentro da própria cabeça. O filme parte de uma premissa simples, quase protocolar dentro do universo esportivo, mas rapidamente revela que o tatame é apenas a superfície de um conflito muito maior, mais silencioso e profundamente político.

Codirigido e estrelado por Zar Amir Ebrahimi, ao lado de Guy Nattiv, o longa aposta em uma estética que não apenas acompanha a narrativa, mas a potencializa. A fotografia em preto e branco, somada ao formato 4:3, não é um mero recurso estilístico: ela comprime o espaço, elimina distrações e reforça uma sensação constante de confinamento. Não há cores que diferenciem bandeiras ou identidades com clareza, há apenas corpos, movimentos e tensão.

Essa escolha estética dialoga diretamente com a proposta do filme. Ao retirar elementos visuais mais chamativos, Tatame força o espectador a se concentrar no essencial: as decisões, os olhares e o peso crescente das circunstâncias. A câmera, sempre próxima, constrói uma intimidade desconfortável, como se estivéssemos invadindo momentos que deveriam ser privados, do aquecimento ao banheiro, dos bastidores ao centro da luta.

E é justamente esse olhar de bastidor que torna tudo mais potente. O filme transita com fluidez entre os espaços da competição, criando uma sensação quase documental, como se estivéssemos acompanhando algo em tempo real. Essa naturalidade contrasta com a escalada dramática que se impõe aos poucos: o que começa como um campeonato mundial se transforma em uma engrenagem política opressiva, onde cada decisão tem consequências que ultrapassam o esporte.

A tensão cresce de forma progressiva e muito bem calculada. A cada novo ato, o filme adiciona uma camada de pressão, ameaças à família, à equipe técnica, à própria atleta. O que está em jogo deixa de ser apenas uma medalha e passa a ser a própria vida. E é nesse ponto que o longa encontra sua força mais brutal: ele não oferece saídas fáceis, apenas escolhas difíceis.

Os diálogos são outro ponto de destaque. Precisos e afiados, eles funcionam quase como válvulas de escape para a pressão acumulada, revelando o conflito interno das personagens. Há uma construção muito clara de como o psicológico vai sendo corroído, cena após cena, até que o embate principal deixa de ser físico e se torna moral.

O filme também não foge dos conflitos religiosos e políticos que permeiam a narrativa, mas evita didatismos. Em vez de explicar, ele expõe. Em vez de discursar, ele coloca suas personagens em situações-limite. E mesmo com uma ambientação restrita, praticamente confinada aos espaços da competição, a sensação é de um mundo muito maior pressionando aquelas mulheres de todos os lados.

No centro disso tudo, as personagens são constantemente colocadas contra si mesmas. Seguir em frente significa ceder? Desistir é sobreviver? Lutar é resistência ou risco? A trama não responde de forma simples, e é justamente nessa ambiguidade que reside sua força.

Ao final, o filme se consolida como um thriller psicológico disfarçado de drama esportivo, ou talvez o contrário. Um retrato intenso, claustrofóbico e, por vezes, duro demais, sobre o peso das escolhas quando tudo ao redor parece já estar decidido. Aqui, cada movimento importa, mas nem sempre é suficiente.

Nota: 4/5

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