Entre perdas, violência e vingança, um filme que constrói tensão a partir de seus personagens.

Há algo de instigante em narrativas que começam fragmentadas, quase dispersas, e aos poucos revelam que estavam sempre caminhando para o mesmo ponto. Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, se apoia justamente nessa estrutura para construir um drama que, antes de tudo, é movido por personagens e pelas decisões que eles tomam, ou evitam tomar.
Em um primeiro momento, o filme se apresenta como um conjunto de histórias paralelas. Cada núcleo carrega sua própria carga dramática, suas dores e conflitos particulares. Murilo (João Vitor Silva), o músico em luto; Marlene (Bella Campos), presa a um relacionamento abusivo; Luciana (Bárbara Colen), movida por vingança; Ivan (Rui Ricardo Diaz), envolto em intenções pouco claras. São trajetórias que, inicialmente, parecem independentes, quase como pequenos filmes coexistindo dentro de um mesmo espaço narrativo.
E esse talvez seja um dos maiores acertos do longa: dar tempo para que cada história respire. Há um cuidado evidente na construção de personalidade de cada personagem, permitindo que o espectador compreenda suas motivações, fragilidades e contradições. Não são apenas peças de um quebra-cabeça maior, são indivíduos que funcionam por si só, com arcos que conseguem se sustentar mesmo antes da interseção.
Essa escolha, no entanto, também cobra seu preço. O início pode soar mais contemplativo, até mesmo disperso, justamente por adiar o encontro dessas narrativas. Mas quando o filme decide avançar e começa a entrelaçar esses caminhos, encontra seu ritmo de forma mais clara. É nesse momento que Cinco Tipos de Medo revela sua verdadeira proposta: mostrar como decisões aparentemente isoladas podem gerar consequências em cadeia.

O roteiro constrói essas conexões de maneira progressiva, sem recorrer a grandes reviravoltas forçadas. Há uma naturalidade nesse encaixe. E quando isso acontece, o impacto é mais emocional do que estrutural, não é sobre surpreender, mas sobre fazer sentido.
Outro ponto interessante é a ausência de um protagonismo definido. O filme não se ancora em um único personagem, mas distribui seu peso dramático entre os diferentes núcleos. Cada subtrama possui sua própria estrutura interna, seus conflitos e resoluções, o que reforça a ideia de um mosaico narrativo. Essa escolha amplia o alcance da história, mas também exige um equilíbrio delicado, algo que o longa, em grande parte, consegue manter.
As atuações contribuem bastante para essa sustentação. O elenco, diverso e bem escalado, entrega performances que dão densidade aos personagens, tornando suas trajetórias mais críveis e envolventes. Mesmo quando o roteiro opta por soluções mais rápidas em determinados momentos, possivelmente para manter o ritmo ou amarrar as pontas, o envolvimento com esses personagens ajuda a suavizar essas transições.

E talvez seja aí que o filme encontra seu principal equilíbrio: entre a ambição estrutural e a execução prática. Nem todas as resoluções têm o mesmo peso ou aprofundamento, e algumas decisões narrativas soam mais funcionais do que orgânicas. Ainda assim, nada que comprometa o conjunto ou diminua o impacto da proposta.
O filme se encontra como um drama que aposta na interseção de vidas para falar sobre escolhas, consequências e, principalmente, sobre como diferentes formas de medo podem conduzir pessoas a caminhos sem volta.
Nota: 3/5
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