Entre o gore e o glitter, Tina Romero transforma o vício digital em apocalipse zumbi.

Queens of the Dead, dirigido por Tina Romero, carrega um sobrenome que pesa, afinal, estamos falando da filha de George A. Romero, um dos nomes mais importantes da história do terror. E sim, há uma invasão de zumbis. Mas aqui, antes de qualquer mordida, o apocalipse começa no gesto repetitivo de rolar o feed. Os mortos-vivos não querem apenas carne: eles querem tela, luz, conexão. E talvez isso seja mais assustador do que parece.
Os primeiros atos são dedicados quase integralmente ao desenvolvimento de personagens. Tina constrói um elenco plural, diverso e numeroso, e é bom o espectador estar preparado para isso. São muitas figuras em cena, cada uma com suas características bem definidas, o que ajuda a criar identificação antes que o caos se instaure. E quando ele chega, chega com força. A decisão de ambientar a história em poucos espaços fortalece a imersão: os cenários são bem explorados, criando uma sensação claustrofóbica que facilita a instalação do colapso.
Visualmente, o filme assume uma identidade própria. Mesmo evocando a pele esverdeada clássica dos zumbis eternizados pelo pai, Tina Romero opta por um brilho metálico, quase neon, como se essas criaturas tivessem saído de um pesadelo pop. Há glamour no apocalipse. Há exagero. Há estilo. E sim, há drag queens zumbis, uma escolha que amplia o discurso sobre pluralidade e identidade dentro do horror, sem abrir mão do espetáculo visual.
Mas não se engane: o filme não abandona o gore. Sangue, mutilações e mortes gráficas estão todas ali, entregues com uma maquiagem impressionante, especialmente considerando as cenas com grande quantidade de mortos-vivos em quadro. O cuidado estético é evidente. Mesmo quando o caos domina a tela, existe textura, detalhe e dedicação técnica. E isso dá peso às mortes dos personagens, que não soam descartáveis.

A sátira é direta. Em um mundo já anestesiado pela hiperconexão, talvez o verdadeiro horror seja a incapacidade de se desconectar. Os zumbis mantêm uma relação obsessiva com seus celulares, e a crítica ao vício digital é perceptível em cada ato. O problema é que, em alguns momentos, o subtexto vira texto demais. A metáfora é clara, talvez clara até demais. Falta, por vezes, sutileza para que a crítica respire sozinha.
O ato final é bizarro, exagerado e abraça completamente a estética construída ao longo da narrativa. Pode dividir opiniões, mas é coerente com o universo que o filme propõe. Ainda assim, há deslizes e arestas que precisam ser ajustadas: certos arcos não se resolvem com a mesma força com que começam, e a narrativa oscila entre o impacto visual e o aprofundamento dramático.
No fim, Queens of the Dead não é apenas um filme sobre zumbis, é um comentário sobre uma geração que talvez já estivesse meio morta antes mesmo da infecção. Tina Romero honra o legado, mas tenta imprimir identidade própria, misturando glamour, diversidade, sangue e crítica social em um pacote estilizado. Não é perfeito. Mas é provocador, atual e visualmente marcante.
Nota: 3/5
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