Entre amizade improvável e investigação fragmentada, o suspense tenta se equilibrar, nem sempre com sucesso.

Instinto Fatal parte de uma estrutura conhecida do suspense contemporâneo: uma jovem decide visitar a mansão do padrasto em uma ilha paradisíaca, buscando uma espécie de fuga, emocional ou geográfica. O que deveria ser uma escapada tranquila rapidamente se transforma em um pesadelo sangrento. E o crime que abre o filme não é apenas um choque inicial; ele é a engrenagem que mantém a narrativa girando até o fim.
O assassinato da primeira cena funciona como catalisador, mas a verdadeira força do longa está na persistência da ameaça. O assassino continua atacando vítimas que orbitam o núcleo principal, minando possibilidades e criando um jogo de suspeitas que vai se afunilando conforme o número de personagens diminui. Essa estratégia mantém o espectador atento, tentando montar o quebra-cabeça junto com os investigadores.
O roteiro se divide claramente em duas frentes narrativas: de um lado, a improvável amizade entre as vizinhas interpretadas por Charlotte Kirk (A Duquesa Vingadora) e Anna-Maria Sieklucka (365 dias); do outro, o núcleo investigativo que tenta compreender a sequência de crimes. O filme alterna constantemente entre esses dois eixos, criando uma montagem que busca paralelismo e tensão crescente.
Há mérito na construção dos personagens em ambos os lados. A rotina das vizinhas é propositalmente pouco reveladora, o que gera uma camada de mistério interessante, o espectador descobre as informações ao mesmo tempo que a polícia. No entanto, essa escolha também traz um efeito colateral: a narrativa assume um ritmo mais lento, quase contemplativo em certos trechos, que demora a transformar suspeita em tensão concreta. A promessa de colisão entre os dois núcleos é instigante, mas leva tempo demais para realmente ganhar força.

Visualmente, o filme aposta em uma atmosfera de erotização constante, com diversas cenas de nudez e corpos expostos. Embora isso possa dialogar com o suspense erótico clássico, aqui muitas vezes soa mais como recurso estético do que como ferramenta dramática. O longa até ensaia abordar temas mais amplos, poder, manipulação, desejo, identidade, mas a abordagem é superficial, tocando nos assuntos sem aprofundá-los.
O ato final apresenta melhora significativa no ritmo e entrega momentos de maior impacto. Há confrontos mais diretos e revelações que tentam amarrar o mistério. Ainda assim, muitas pontas permanecem soltas, e algumas resoluções parecem apressadas ou pouco fundamentadas. O resultado é um suspense que constrói expectativa com competência, mas que tropeça na própria ambição ao tentar equilibrar mistério, erotismo e investigação.
A trama tem uma base interessante: cenário isolado, assassinatos sucessivos e um jogo de suspeitas que poderia ser mais afiado. A alternância entre os dois núcleos é uma boa ideia estrutural, mas a execução oscila entre momentos envolventes e escolhas questionáveis. Não é um desastre, mas também não alcança todo o potencial que sugere, deixando a sensação de que havia uma trama mais forte ali, esperando para emergir.
Nota: 2/5
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