Cinema, Crítica de Filme

De Volta à Bahia | Crítica

Um romance que entende que amar também é enfrentar os próprios medos.

De Volta à Bahia é daqueles romances que entendem o poder do cenário como parte ativa da narrativa. Ambientado no litoral baiano, o filme mistura comédia romântica com arcos dramáticos mais densos, criando uma história que vai além do “vai ou não vai” do casal. Aqui, o amor é importante, mas os medos, traumas e desejos individuais têm o mesmo peso.

O casal protagonista, vivido por Bárbara França e Lucca Picon, passa pelos inevitáveis percalços do gênero. O diferencial está no modo como o roteiro permite que ambos existam separados. Quando não estão juntos em cena, continuam sendo personagens com conflitos próprios, angústias individuais e jornadas paralelas de amadurecimento. Isso dá ao filme uma maturidade interessante: não é apenas sobre ficar junto, mas sobre estar pronto para isso.

A direção de Eliezer Lipnik e Joana di Carso (que também assina o roteiro) aposta constantemente na força imagética do ambiente. Pôr do sol, mar, textura da água e o movimento das ondas não são apenas cartões-postais; são elementos narrativos. A câmera frequentemente se aproxima dos surfistas dentro da água, oferecendo uma perspectiva menos turística e mais imersiva. Há uma tentativa clara de construir uma comédia romântica com linguagem visual mais sensorial.

A fotografia é, em sua maior parte, bela e eficiente. O uso da Bahia como cenário é um dos grandes trunfos do longa. Ainda assim, alguns problemas técnicos, especialmente em certas cenas com uso perceptível de tela verde, quebram momentaneamente a imersão. São deslizes pontuais, mas que contrastam com o cuidado geral da produção.

O filme também se destaca ao explorar núcleos familiares com mais profundidade do que o esperado. A relação entre mãe e filho, assim como entre filha e pai, ganha espaço e entrega arcos dramáticos consistentes. Esses conflitos ajudam a expandir o tema central: crescer também é revisitar as próprias origens. O romance, então, passa a dialogar com pertencimento, identidade e reconciliação emocional.

O alívio cômico funciona bem e surge no tempo certo, sem esvaziar os momentos dramáticos. O roteiro sabe dar espaço para cada arco respirar, equilibrando leveza e intensidade. Essa organização narrativa evita que o filme pareça apressado ou superficial, mesmo quando opta por soluções mais previsíveis.

O filme é uma comédia romântica que entende seu gênero, mas tenta ir além dele. Ao combinar paisagens marcantes, conflitos familiares sólidos e um romance que respeita a individualidade dos protagonistas, o longa entrega uma experiência sensível e visualmente agradável. Não é isento de falhas técnicas, mas compensa com sinceridade emocional e um bom aproveitamento do cenário que o envolve.

Nota: 4/5

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