Cinema, Crítica de Filme

A Miss | Crítica

Sustentado por diálogos afiados e performances intensas, o filme investiga os limites entre sonho e imposição.

O drama familiar costuma ser um terreno fértil para histórias sobre projeção e frustração, e A Miss, dirigido por Daniel Porto, mergulha nesse território ao construir um retrato tenso de uma mãe que transforma o sonho não realizado em obsessão. O filme parte de uma dinâmica doméstica desconfortável para investigar como expectativas impostas podem moldar, e ferir, as relações mais íntimas.

No centro da narrativa está a personagem vivida por Helga Nemetik, uma mãe autoritária, rígida e distante de qualquer idealização afetuosa. Sua determinação em fazer da filha, interpretada por Maitê Padilha, a realização de um sonho antigo estabelece o eixo dramático do filme. Ao lado deles, Pedro David completa o trio principal, formando um núcleo familiar em constante estado de fricção.

As atuações desse trio são o grande motor da obra. Sempre que os três compartilham a cena, o filme constrói uma tensão palpável, quase física. Há uma sensação constante de que um confronto é inevitável, de que alguma “pedrada” emocional está prestes a acontecer. Essa expectativa é sustentada por uma mise-en-scène que privilegia o embate direto e por um ritmo que prolonga silêncios e olhares, intensificando o desconforto.

O roteiro, assinado pelo próprio diretor, se destaca pelos diálogos afiados e densos, carregados de subtexto. As conversas nunca são meramente expositivas; elas revelam camadas de ressentimento, desejo e medo. O elenco responde a essa escrita com interpretações precisas, encontrando nuances que impedem os personagens de se tornarem caricaturas. Mesmo nos momentos de maior dureza, há uma complexidade emocional que sustenta o interesse dramático.

Um dos méritos do filme está em reservar espaço para explorar o passado da mãe. Ao investigar as origens de sua obsessão, a narrativa amplia a compreensão do espectador e evita reduzi-la a um antagonismo simples. Os atos finais guardam revelações que recontextualizam comportamentos e adicionam novas leituras às relações familiares, funcionando como um fechamento que recompensa a atenção dedicada ao desenvolvimento psicológico.

Por outro lado, a abordagem do tema trans surge como um ponto de fricção. O filme apresenta essa questão com força e intenção clara, mas, ao tentar conciliá-la com o peso do sonho central da protagonista, a narrativa por vezes revela pequenas inconsistências. Esses deslizes não anulam o impacto do conjunto, mas indicam um desequilíbrio momentâneo entre ambição temática e execução.

Ainda assim, A Miss se sustenta como um drama intenso e bem interpretado. A combinação entre atuações sólidas, diálogos cortantes e uma investigação cuidadosa de motivações pessoais resulta em um filme que provoca e incomoda na medida certa. Ao final, permanece a sensação de ter assistido a um estudo de personagens que, apesar de imperfeições, encontra força na coragem de encarar conflitos familiares sem suavizá-los.

Nota: 4/5

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