Mais tensão social do que terror, Zafari observa o colapso de perto.

Em Zafari, Mariana Rondón constrói um país distópico que parece sempre à beira do colapso, mas nunca exatamente no momento da explosão. A crise é difusa, cotidiana, quase silenciosa: alimentos começam a desaparecer, a água se torna escassa e o custo de vida básico passa a ser um privilégio. No centro desse cenário, o hipopótamo do zoológico, que dá nome ao filme, surge como uma imagem quase irônica, deslocada da realidade ao seu redor, recebendo comida e água fresca enquanto o restante da população tenta sobreviver com o mínimo.
O roteiro, assinado pela própria Rondón em parceria com Marité Ugás, entende que esse mundo precisa ser apresentado com paciência. O filme é deliberadamente lento, não como provocação vazia, mas como estratégia narrativa. É nesse tempo dilatado que o espectador passa a observar as relações dentro do prédio onde a história se concentra, percebendo como pequenas tensões vão se acumulando até se tornarem insustentáveis.
Grande parte dessa atmosfera se constrói dentro do apartamento de Ana (Daniela Ramírez), Edgar (Francisco Denis) e Bruno (Varek La Rosa). Ali, o filme encontra seu ponto mais sufocante: um espaço doméstico que vai se transformando em território de desgaste emocional, medo e decisões extremas. A tensão nasce da sensação constante de que algo está prestes a desmoronar, seja a convivência, a moral ou a própria noção de comunidade.

Essa caminhada faz sentido justamente porque nos permite conhecer as pessoas daquele prédio e suas respostas individuais à crise. Cada personagem tenta sobreviver à sua maneira: alguns planejam sair do país, outros vendem o que ainda têm, enquanto há quem busque soluções nada ortodoxas para garantir “comida” na mesa. As decisões, em certos momentos, podem soar questionáveis, mas nunca incoerentes. Elas refletem exatamente quem essas pessoas são e até onde conseguem ir quando a normalidade deixa de existir.
À medida que a situação se agrava, o filme passa a desenhar um retrato cada vez mais duro da perda de socialização. O convívio se deteriora, a empatia desaparece e a lógica coletiva dá lugar à sobrevivência individual. Zafari não oferece conforto nem falsas esperanças: fica claro que não há perspectivas reais de melhora, apenas adaptação ao pior cenário possível. Essa ausência de horizonte é uma das forças mais perturbadoras do filme.
As atuações acompanham essa progressão com precisão. Daniela Ramírez, Francisco Denis e Varek La Rosa constroem personagens que vão acumulando camadas de desgaste físico e emocional, refletindo no corpo, no olhar e nos silêncios o peso de um mundo que se fecha. Nada é exagerado; o cansaço e o desespero surgem de forma orgânica, quase inevitável.
Embora o material de marketing tenha vendido essa história como um filme de terror, essa classificação não se sustenta por completo. O longa flerta com o gênero, mas está mais interessado em uma tensão social constante do que em provocar medo direto. Ainda assim, sua narrativa é bem costurada, coerente com a proposta e desconfortável na medida certa.
Nota: 3/5
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