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Quarto do Pânico | Crítica

Mais interessado em relações humanas do que em pirotecnia, o filme encontra força no confinamento.

Remake brasileiro de  Quarto do Pânico (2002), de David Fincher, o longa parte de uma premissa já conhecida: mãe e filha presas dentro de um cômodo supostamente impenetrável, enquanto criminosos tentam acessar algo valioso escondido na casa. Aqui, Isis Valverde e Marianna Santos ocupam o centro da narrativa, recriando a dinâmica de sobrevivência que marcou o filme original, mas com um olhar mais interessado nas relações humanas do que no espetáculo do suspense em si.

As semelhanças com o longa estrelado por Jodie Foster são claras e assumidas: o confinamento no quarto, a falha do sistema de segurança e a urgência médica da filha diabética, que obriga a mãe a sair do local seguro. No entanto, o roteiro de Fábio Mendes e a direção de Gabriela Amaral Almeida escolhem um caminho mais contido e íntimo, usando essa estrutura como base para explorar personagens e tensões internas.

Um dos maiores acertos está justamente no trio de assaltantes vivido por André Ramiro, Marco Pigossi e Caco Ciocler. Com perfis completamente distintos, eles não funcionam apenas como ameaças genéricas, mas como figuras que ganham camadas à medida que o filme avança. O roteiro se dedica a entender quem são esses homens, suas motivações e os caminhos que os levaram até aquele assalto, criando um jogo psicológico interessante entre vítimas e invasores. Não há personagens soltos: todos têm função dramática clara dentro da narrativa.

Gabriela reforça essa proposta com uma direção que aposta na proximidade. A câmera frequentemente se mantém colada aos rostos, aos corredores estreitos e aos espaços apertados da casa, criando uma atmosfera constantemente sufocante. O suspense nasce menos de grandes reviravoltas e mais de pequenas decisões, ações simples e momentos silenciosos que ampliam a tensão. O ritmo é bem dosado durante boa parte do filme, sustentando um clima de ameaça contínua sem precisar recorrer a excessos.

A relação entre mãe e filha também é bem trabalhada. Em meio ao caos, o filme constrói arcos dramáticos convincentes para ambas, explorando culpa, proteção, medo e amadurecimento forçado. As cenas entre Isis Valverde e Marianna Santos funcionam não apenas como respiro emocional, mas como parte essencial da engrenagem dramática, reforçando que o verdadeiro conflito não está apenas fora do quarto, mas também dentro dele.

O principal tropeço surge nos atos finais. Ao se recusar a desacelerar, o filme começa a acumular decisões apressadas, falhas de continuidade e resoluções pouco orgânicas. Elementos que vinham sendo construídos com cuidado acabam se atropelando, resultando em um desfecho que não entrega o impacto emocional e narrativo prometido pelo restante da obra.

Ainda assim, trata-se de uma adaptação funcional e competente, que entende seus limites e aposta na força dos personagens, da atmosfera e da encenação. Sem reinventar o gênero, o filme encontra identidade própria ao trocar o espetáculo pelo detalhe, a grandiosidade pela tensão íntima, mesmo que perca parte dessa força justamente quando mais precisava dela.

Nota: 4/5

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