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Dona Beja | Primeiras Impressões

Entre vingança, patriarcado e racismo estrutural, Dona Beja mostra que não quer ser apenas uma releitura histórica confortável.

Antes de tudo, é importante alinhar expectativas: Dona Beja não é uma novela de época tradicional, daquelas com trama leve, romance açucarado e conflitos conduzidos de forma mais “tranquila”. Desde seus primeiros episódios, a produção protagonizada por Grazi Massafera deixa claro que seu caminho passa por temas mais adultos, por uma condução narrativa mais direta e por uma abordagem que flerta com o incômodo.

Nos cinco episódios iniciais, todos com cerca de 45 minutos, o que se desenha é, sobretudo, uma jornada de vingança. A personagem central é apresentada a partir de feridas abertas, ressentimentos e experiências que moldam suas escolhas, sempre atravessadas por violência, sangue e nudez que surgem de forma funcional à narrativa, sem exageros gratuitos, mas também sem suavizações artificiais.

A trama utiliza o contexto histórico para tensionar questões que seguem extremamente atuais. Mesmo após a libertação dos escravizados pela lei, o racismo estrutural se manifesta de maneira cotidiana, em humilhações, exclusões e dificuldades que ecoam situações facilmente reconhecíveis nos dias de hoje. O patriarcado, os casamentos arranjados como ferramenta de poder, status e imposição social também aparecem com força, ajudando a construir um retrato social duro, mas coerente com o período retratado.

Esses temas, no entanto, não são entregues de forma totalmente expositiva. Muitos elementos ainda surgem aos poucos, pedindo tempo e desenvolvimento para que suas camadas sejam plenamente compreendidas. Há detalhes, ligações e motivações que parecem propositalmente incompletas, indicando que a narrativa confia no desenrolar gradual da história para aprofundar seus conflitos.

Um dos pontos mais interessantes desse início está justamente na forma como os episódios se conectam. As transições entre capítulos funcionam acima da média, com uma boa troca de informações e um fluxo narrativo que mantém o interesse. Mesmo quando a trama familiar se concentra majoritariamente em Beja (Grazi Massafera) e Antônio (David Junior), já é possível perceber a construção de diferentes núcleos que devem ganhar força na pequena cidade do interior, sejam famílias influentes, relações de poder ou personagens que podem se aliar ou se chocar ao longo da história.

Diferente de outras novelas de época recentes, Dona Beja não foge de temas espinhosos nem tenta romantizar excessivamente seu universo. Questões como hipocrisia social aparecem em subtramas bem delineadas, como homens considerados “de bem” pela sociedade, mas que traem suas esposas, desviam dinheiro e sustentam uma moralidade apenas de fachada. Essas pequenas polêmicas ajudam a enriquecer o tecido narrativo e reforçam o discurso crítico da obra.

Mesmo com alguns clichês típicos do formato novelístico surgindo aqui e ali, o conjunto funciona. O ritmo se mantém consistente, os conflitos são bem posicionados e o elenco entrega personagens sólidos, com espaço para crescimento. Dona Beja começa mostrando que pretende misturar vingança, ressentimento e costumes da época em uma narrativa que aposta mais no impacto emocional e social do que na idealização histórica.

Essas primeiras impressões indicam um projeto ambicioso e promissor. Resta acompanhar se a novela conseguirá sustentar essa abordagem mais adulta e crítica até o fim, sem diluir a força de seus temas nem depender apenas do choque inicial.

*A HBO Max mandou os primeiros capítulos para o site

A novela nacional tem estreia marcada para 2 de fevereiro na HBO Max

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