Menos ficção científica, mais sobrevivência: Destruição Final 2 aposta no drama humano em um mundo devastado.

Destruição Final 2 (Greenland: Migration) parte de uma escolha muito consciente, e acertada, de continuidade. Assim como no primeiro filme, a sequência dirigida por Ric Roman Waugh não está interessada em aprofundar explicações científicas ou em transformar o apocalipse em um espetáculo técnico sobre o fim do mundo. A ficção científica, mais uma vez, fica em segundo plano. O foco segue sendo as relações familiares e o instinto de sobrevivência diante de um planeta que já não é mais o mesmo.
Agora, cinco anos após os eventos do meteoro Clarke, a narrativa desloca seu eixo: o bunker, antes símbolo de proteção e esperança, deixa de ser um lugar seguro. A família Garrity precisa sair, migrar e enfrentar um mundo profundamente alterado. O filme assume esse ponto de partida com rapidez e já estabelece seu principal motor dramático, sobreviver fora, quando o “depois” nunca foi realmente planejado.
O planeta, devastado pelo impacto do meteoro, apresenta mudanças constantes: radiação, alterações térmicas severas e pequenos meteoros que ainda atingem a superfície. Esses elementos funcionam mais como obstáculos narrativos do que como conceitos a serem explicados. O roteiro não demonstra interesse em detalhar o funcionamento desse novo mundo, preferindo usá-lo como pano de fundo para decisões emocionais e morais da família.
Visualmente, o filme surpreende positivamente. Os efeitos especiais são bem integrados às locações reais, com pouquíssimo uso perceptível de tela verde. A direção sabe privilegiar elementos naturais, paisagens áridas, terrenos destruídos, estruturas abandonadas, criando uma sensação constante de hostilidade ambiental. É um filme que entende que o apocalipse se torna mais convincente quando parece palpável, físico e próximo do real.

Essa opção estética contribui bastante para a imersão, mesmo quando o roteiro escolhe não explicar certas inconsistências do mundo apresentado. Questões como a presença de oxigênio, a sobrevivência de pessoas fora de bunkers por cinco anos, a ausência quase total de fauna e flora ou os efeitos colaterais graves da radiação simplesmente ficam pelo caminho. O filme não se importa em responder e, curiosamente, isso não chega a comprometer sua proposta como entretenimento.
Onde Destruição Final 2 começa a mostrar fragilidades é na construção de seus personagens secundários e na transição entre atos. A agilidade da narrativa ajuda a manter o ritmo acelerado e a sensação constante de urgência, mas cobra seu preço. Personagens menores surgem e desaparecem sem o devido desenvolvimento, e algumas decisões dramáticas parecem existir apenas para empurrar a história adiante, sem tempo de assimilação.
Ainda assim, o núcleo central funciona. Gerard Butler (John), Morena Baccarin (Allison) e Roman Griffin Davis (Nathan) sustentam uma dinâmica familiar crível, marcada por desgaste emocional, medo e um senso de responsabilidade que atravessa toda a trama. A relação entre eles é o verdadeiro coração do filme, e é ali que a narrativa encontra seus melhores momentos, especialmente quando desacelera para observar pequenos gestos e conflitos silenciosos.
O problema é que a própria trama principal, ao acelerar demais, por vezes prejudica essa observação. Há momentos em que o espectador sente falta de pausas narrativas maiores para compreender melhor o impacto psicológico daquele mundo sobre os personagens. O filme corre quando poderia respirar, e isso cria pequenas lacunas emocionais.
Longa sabe exatamente o que é: um filme de entretenimento, de apelo popular, que prioriza emoção, ritmo e relações humanas em detrimento de coerência científica. Não é uma continuação que amplia o universo em profundidade, mas sim uma que reforça sua identidade. Como cinema pipoca, funciona bem. Como drama familiar em um cenário apocalíptico, acerta mais do que erra.
Nota: 3/5
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