Teatro

A Baleia | Crítica

Um espetáculo intenso sobre amor, perda e o peso do que não foi dito.

Crédito: Ale Catan

A peça A Baleia parte de temas já conhecidos, isolamento, culpa, reconexão e finitude, mas encontra força justamente na maneira como escolhe encará-los: sem concessões fáceis, sem alívio emocional apressado. A notoriedade recente da obra, impulsionada pela adaptação cinematográfica dirigida por Darren Aronofsky e pela atuação premiada de Brendan Fraser, não diminui o impacto da encenação teatral. Pelo contrário, o palco potencializa o desconforto, a intimidade e o peso emocional dessa história.

Emílio de Mello assume o papel de Charlie com uma entrega física e emocional que impressiona. Seu protagonista é um homem gravemente doente, consciente de sua condição e, principalmente, das escolhas que o levaram até ali. Cada movimento é carregado de desgaste: levantar, caminhar, respirar, ir ao banheiro, tarefas simples transformadas em pequenos colapsos cotidianos. Emílio não busca piedade; ele constrói um corpo em falência, mas uma mente lúcida, atravessada por culpa, amor e um desejo tardio de reparação.

Esse desejo se concentra na relação com a filha, vivida por Gabriela Freire. O afastamento entre pai e filha criou um terreno fértil para rancor, desprezo e ressentimentos acumulados. As cenas entre os dois são as mais duras da peça, carregadas de tensão e emoções que raramente encontram saída. As tentativas de aproximação quase sempre fracassam, e justamente por isso doem mais. Não há catarse fácil, apenas a exposição crua de feridas que talvez nunca cicatrizem.

Crédito: Ale Catan

A encenação utiliza uma linha do tempo sinalizada por uma tela no palco, recurso que dialoga diretamente com a rotina de Charlie como professor de redação, que ministra aulas com a câmera desligada. Essa escolha reforça o isolamento do personagem: ele existe para os outros apenas como voz, nunca como presença. O teatro, nesse sentido, transforma a ausência em elemento visual constante, ampliando o impacto dramático da encenação.

Outro destaque fundamental é a personagem da amiga enfermeira, interpretada por Luisa Thiré. Ela não é apenas quem cuida do corpo de Charlie, mas também quem tenta, incessantemente, salvá-lo de um buraco emocional que parece não ter saída. Sua insistência em buscar tratamento, em tirá-lo de casa e em fazê-lo reagir funciona como contraponto à resignação do protagonista. Essa relação se intensifica à medida que a saúde de Charlie piora, revelando não só afeto, mas também frustração, exaustão e a consciência de que o caminho à frente é duro, talvez impossível.

A peça se expande ao abordar múltiplos temas a partir da experiência dos personagens: a homofobia sofrida por Charlie, o trauma da perda do namorado em uma tragédia, a ex-esposa que perdeu o controle da própria vida e da filha e se entregou ao álcool, a ideia da morte como consequência inevitável e, ao mesmo tempo, como algo que pode ser encarado com algum grau de aceitação. Existe ainda a noção de “acertar contas” antes de sair do mundo, mesmo quando esse acerto parece tardio demais.

Crédito: Ale Catan

Apesar do elenco reduzido, A Baleia é uma obra plural. Os diálogos são afiados, ora duros e pesados, ora íntimos e confessionais. Há espaço para confrontos brutais, conselhos de amizade, tentativas de redenção e desabafos juvenis que revelam outras formas de dor. Mesmo com Charlie no centro da narrativa, a peça nunca se fecha nele, cada personagem carrega seu próprio peso, suas contradições e seus fracassos.

A Baleia não fala apenas sobre um homem à beira da morte, mas sobre pessoas tentando existir apesar das falhas, das perdas e das escolhas irreversíveis. É um espetáculo que encara a fragilidade humana sem filtros e sem promessas de conforto. Mais do que o corpo que dá nome à obra, o que emerge no palco é um conjunto de vozes, dores e tentativas.

Nota: 4/5

Contato: naoparecemaseserio@gmail.com

Não Parece Mas É Sério

Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério

Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio

Instagram: @naoparecemaseserio

Serviço:

Teatro SABESP FREI CANECA 

Temporada: 23 de janeiro até 1º de março 2026

Horário: Sextas e sábados às 20h e domingo às 19h.

IngressosIngressos:

Plateia Baixa – R$ 160 (inteira) / R$ 80 (meia-entrada)

Plateia – R$ 140 (inteira) / R$ 70 (meia-entrada)

Plateia Alta – R$ 120 (inteira) / R$ 60 (meia-entrada)

Plateia Popular – R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia-entrada)

Desconto Caixa Residencial: clientes CAIXA Residencial têm 50% de desconto na compra de até dois (2) ingressos. 

Desconto: Para clientes CAIXA Residencial e VIVO VALOZRIZA

Bilheteria: https://uhuu.com

Duração: 100 minutos.
Classificação: 14 anos. Menores de 18 anos, somente poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis e crianças até 24 meses de idade que ficarem no colo dos pais, não pagam.

Deixe um comentário