Um suspense claustrofóbico sobre viver com a memória da violência

Diferente de muitos filmes de terror contemporâneos que usam o trauma apenas como gatilho narrativo ou metáfora rasa, A Vingança de Charlie escolhe um caminho mais incômodo e, por isso mesmo, mais interessante. O longa dirigido por Colton Tran não se preocupa em construir mistério em torno do “quem” ou do “quando”, mas sim do como é continuar vivendo depois da violência. Logo de início, o filme subverte expectativas ao apresentar o suposto psicopata já preso, deslocando o horror da ameaça física imediata para algo muito mais íntimo: a permanência do medo.
Kathleen Kenny interpreta uma protagonista marcada por um estresse pós-traumático que nunca é espetacularizado. Ela vive isolada, afastada da família, trabalhando em home office, não por escolha confortável, mas porque o mundo externo se tornou um espaço de risco constante. O algoz aparece o tempo todo, ou talvez não. O filme se constrói exatamente nessa dúvida: estamos acompanhando uma ameaça real ou uma mente que ainda não consegue distinguir passado e presente?
Essa ambiguidade é sustentada com inteligência pelo roteiro, que opta por focar quase exclusivamente na protagonista e na casa onde ela vive. É um filme de poucos acontecimentos, poucos personagens e pouquíssimos espaços, mas que nunca soa vazio. Pelo contrário: há história suficiente para preencher cada silêncio, cada rotina repetida, cada pequeno gesto cotidiano. A escolha do trabalho da protagonista, ajudar outras pessoas a lidar com suas próprias dores, é particularmente eficaz, porque cria um contraste cruel entre aquilo que ela oferece ao outro e aquilo que ainda não consegue resolver dentro de si.
Colton Tran entende muito bem o peso do espaço e da mise-en-scène. A câmera permanece próxima das ações da protagonista, observando, acompanhando, quase vigiando. Os planos ajudam a construir uma atmosfera claustrofóbica e densa, onde a casa deixa de ser abrigo e passa a funcionar como extensão do trauma. O terror não vem de jumpscares ou sustos fáceis, mas da repetição, da espera, da sensação de que algo está sempre prestes a acontecer, mesmo quando não acontece.

Um dos acertos mais sensíveis do filme está na forma como o estresse pós-traumático é tratado. A protagonista busca cuidado, tenta se manter funcional, e o roteiro respeita esse processo sem transformá-lo em espetáculo. A decisão de nunca revelar claramente o rosto ou o nome do vilão ao longo do filme reforça a ideia de que, mais do que um homem, ele é um conceito: a memória da violência que insiste em retornar.
O ato final é onde A Vingança de Charlie se permite tropeçar um pouco. A aceleração narrativa traz problemas de continuidade e algumas resoluções menos refinadas do que o restante do filme sugeria. Ainda assim, funciona dentro da proposta geral, porque mantém coerência emocional com tudo o que foi construído antes. Não é um final perfeito, mas é um final que entende o próprio filme.
Longa é um suspense de terror que se sustenta pela atmosfera, pela atuação contida de Kathleen Kenny e pela recusa em oferecer respostas fáceis. Um filme que entende que, às vezes, o verdadeiro horror não está em quem ataca, mas em quem precisa continuar vivendo depois.
Nota: 3/5
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Filme disponível no Filmelier+ a partir de, 22 de janeiro.