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Davi: Nasce Um Rei | Crítica

Uma animação que entende Davi não como um herói de força, mas de coração.

Davi: Nasce Um Rei é uma animação que surpreende logo no primeiro contato visual. O traço é detalhado, expressivo e cheio de profundidade, não apenas no design dos personagens, mas também nos cenários, nas localidades e nos pequenos elementos que compõem cada quadro. Existe um cuidado evidente com a construção do mundo apresentado, algo que dá peso e identidade à narrativa, mesmo sendo uma obra voltada para o público infantil.

A animação escolhe focar no coração de Davi como sua principal força narrativa. Ele é apresentado como alguém essencialmente diferente dos outros personagens, não pela força física ou pelo status, mas pela sensibilidade, empatia e capacidade de enxergar o outro. Esse contraste fica ainda mais potente na relação com o Rei Saul, que surge como o grande contraponto do filme. Saul não é tratado como um vilão, mas como um antagonista profundamente humano, consumido por sentimentos como inveja, medo e ressentimento ao saber que Davi é seu sucessor.

Essa dinâmica entre Davi e Saul é um dos pontos mais interessantes do filme. Enquanto Saul se fecha, se deteriora emocionalmente e reage movido pelo medo da perda de poder, Davi insiste em tentar resgatar o melhor daquele homem. Há uma tentativa constante de aproximação, de compreensão e de perdão, o que reforça a ideia central do filme: a bondade como escolha, mesmo em ambientes hostis.

Outro elemento central da animação é o uso da música. Davi: Nasce Um Rei é um filme claramente musical, e isso não está ali apenas como adorno. As canções são cativantes, bem integradas à narrativa e cumprem um papel essencial no ritmo da história, ajudando a manter o engajamento, especialmente para o público mais jovem. A música funciona como um fio condutor emocional, traduzindo sentimentos que muitas vezes o roteiro prefere sugerir a verbalizar.

Mesmo com uma estrutura infantil, o filme não ignora temas complexos. A guerra entre os povos é apresentada de forma acessível, sem suavizar completamente seus impactos, e a presença de Deus como guia do povo israelita é um eixo narrativo constante. Essa espiritualidade não surge de maneira abstrata, mas como força que molda decisões, conflitos e relações, especialmente na jornada de Davi.

O roteiro também acerta ao dar espaço para a família do protagonista. A relação de Davi como filho e irmão funciona como um porto seguro emocional, um lugar de pertencimento e afeto que ajuda a moldar quem ele é. Essa base familiar é importante para entendermos sua postura diante do mundo, mesmo que o filme use esse núcleo mais como sustentação do personagem do que como arco narrativo independente.

A animação deixa claro seu propósito: não contar toda a história de Davi, mas apresentar quem ele é. A animação funciona como uma introdução, um primeiro capítulo de uma trajetória muito maior. E dentro dessa proposta, o filme entrega uma obra visualmente rica, emocionalmente honesta e narrativamente coerente, que respeita seu público infantil sem subestimar a complexidade dos temas que aborda.

Nota: 3/5

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