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Tron: Ares | Crítica

Com técnica impecável e ideias familiares, Tron: Ares prefere o impacto estético à provocação filosófica.

Crédito: Leah Gallo. © 2025 Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.

Tron: Ares, recém-chegado ao catálogo do Disney+, é um filme que se impõe primeiro pelos olhos e pelos ouvidos. Tecnicamente, o longa é um espetáculo. A trilha sonora assinada pelo Nine Inch Nails pulsa como o coração do filme, guiando cenas de ação, tensão e contemplação com uma identidade forte, industrial e imersiva. O figurino, os efeitos visuais e o design dos programas, especialmente na forma como seus corpos e roupas dialogam com a lógica do mundo digital, criam um universo visual coeso, elegante e extremamente sedutor. As lutas, bem coreografadas e claramente pensadas para serem vistas como espetáculo, reforçam essa sensação de grandiosidade e precisão estética.

Narrativamente, o filme caminha por terrenos já bastante conhecidos da ficção científica. A velha dinâmica da criatura que se volta contra o criador retorna aqui na relação entre o programa Ares (Jared Leto) e Julian (Evan Peters), seu criador e diretor. A desobediência à diretriz, o desejo de autonomia e a busca por algo além do que foi programado são temas familiares, mas que encontram em Tron: Ares uma abordagem funcional, ainda que pouco surpreendente. O longa se conecta de forma mais direta ao Tron original de 1982, resgatando conceitos e atmosferas daquele filme, ao mesmo tempo em que espalha pequenas referências a Tron: O Legado (2010), agradando fãs atentos sem depender excessivamente da nostalgia para se sustentar.

Um dos pontos mais interessantes, ainda que subaproveitados, é a tentativa de discutir o uso consciente da inteligência artificial. O filme flerta com reflexões sobre limites, responsabilidade e humanidade dentro de sistemas criados pelo homem, mas acaba priorizando os elementos clássicos da ficção científica e da ação, deixando essa conexão com o mundo real mais como pano de fundo do que como motor dramático. É uma escolha que torna o filme mais acessível e menos provocativo, funcionando melhor como entretenimento do que como comentário social.

No elenco, Evan Peters entrega um vilão clássico: dominador, ambicioso e completamente seduzido pela ideia de poder absoluto. Seu Julian é um personagem que se perde justamente no excesso de controle, representando bem a figura do criador que não aceita perder a autoria da própria obra. Jared Leto, por sua vez, constrói um Ares contido, quase minimalista, coerente com a natureza de um programa. Mesmo com poucas expressões e falas econômicas, ele consegue transmitir uma aura de rebeldia e curiosidade, tornando crível esse despertar para algo que se assemelha à humanidade.

© 2025 Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.

Greta Lee, como Eve Kim, entrega uma personagem que compartilha ambições semelhantes às do vilão, mas guiada por motivações mais nobres e familiares. Ainda que sua trajetória não reserve grandes surpresas ao espectador, ela funciona como contraponto moral e emocional dentro da narrativa. O roteiro acerta especialmente ao humanizar Ares aos poucos, usando suas interações e escolhas para aproximar o público de um personagem que, teoricamente, não deveria sentir ou se relacionar como um humano.

Na direção, Joachim Rønning demonstra segurança ao explorar principalmente o núcleo urbano do universo digital, criando espaço para cenas de ação bem encenadas e visualmente impactantes. Seu controle de ritmo e de espaço favorece as sequências de luta, que nunca parecem excessivas ou gratuitas. A presença de Kevin Flynn, vivido novamente por Jeff Bridges, poderia soar apenas como um aceno nostálgico, mas o personagem cumpre uma função narrativa essencial, servindo como elo entre passado e presente e oferecendo as respostas que Ares tanto busca sobre sua origem e propósito.

Tron: Ares não revoluciona a franquia nem a ficção científica contemporânea, mas entrega um filme sólido, visualmente impressionante e consciente de seu legado. É uma obra que entende o universo que habita, respeita sua mitologia e aposta mais na experiência sensorial do que em grandes rupturas temáticas, e, dentro dessa proposta, funciona muito bem.

Nota: 4/5

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