Entre clichês bem usados e uma vilã memorável, o filme diverte, mas não explora todo o potencial da sua ideia.

Agente Muito Especiais parte de um terreno extremamente familiar: o clássico filme policial de dupla improvável, onde dois agentes com personalidades, passados e formas de enxergar o mundo completamente distintas são forçados a trabalhar juntos. O diferencial, e também o principal atrativo do longa dirigido por Pedro Antonio, está na escolha de colocar no centro da narrativa dois policiais abertamente gays, seguros de suas identidades e escolhas de vida, sem que isso seja tratado como conflito interno ou problema a ser resolvido. Essa abordagem, idealizada a partir de um argumento de Paulo Gustavo, ganha forma no roteiro de Fil Braz, que tenta equilibrar comédia, ação e representatividade dentro de uma estrutura bastante tradicional.
A dupla é formada por Jeff (Marcus Majella), um policial confiante, destemido e performático, e Johnny (Pedroca Monteiro), um funcionário medroso, atrapalhado e excessivamente protegido pela mãe. A dinâmica entre eles funciona no nível mais básico do gênero: contraste, choque de personalidades e humor físico e verbal. Quando estão juntos em cena, há química, tempo cômico e uma entrega que sustenta boa parte do filme. O problema é que essa força nunca é plenamente absorvida pela trama principal, que parece existir mais como um fio condutor protocolar do que como um motor dramático real.
Mesmo com um ritmo acelerado, que ajuda na introdução de personagens e núcleos, especialmente o grupo de bandidos, o filme sofre com pouca densidade narrativa. Os acontecimentos se acumulam, mas raramente se aprofundam. Falta tensão, falta risco, falta aquela sensação de progressão dramática que transforme as situações em algo memorável. A ideia é diferente, atual e relevante, mas o desenvolvimento é tímido, seguro demais, quase com medo de sair do “lugar comum” que o próprio filme se propõe a revisitar.

Dentro desse cenário, há uma grata e poderosa surpresa: Dira Paes como a vilã Onça. Sempre que está em cena, o filme ganha outra energia. Onça é carismática, bem escrita, dona dos melhores diálogos e dos momentos mais vivos do longa. Dira preenche a tela com autoridade, humor e presença, entregando uma personagem que parece pertencer a um filme mais ousado do que aquele que estamos assistindo. Sem exagero, é ela quem oferece os instantes mais intensos da obra.
O longa não entrega nada de extraordinário, mas também não se perde completamente. Convence dentro da sua proposta, conta sua história com clareza, amarra suas pontas e entende as engrenagens do gênero que escolhe homenagear. Os clichês estão todos lá, e muitos são usados de forma consciente e funcional, mas raramente reinventados. O filme diverte, sobretudo pelo carisma dos protagonistas e pela força da vilã, mas deixa a sensação de que poderia ter ido além, explorando com mais coragem a ideia potente que carrega desde sua origem.
Nota: 2/5
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