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Sonhos de Trem | Crítica

Um drama contido e visceral sobre amor, perda e homens moldados pela distância.

Cr. BBP Train Dreams. LLC. © 2025.

Sonhos de Trem, disponível na Netflix, é um filme que encontra sua força no silêncio, na luz e naquilo que não é dito. A fotografia é belíssima e absolutamente consciente do espaço que ocupa na narrativa: a luz natural, o uso de velas, fogueiras e pequenos pontos de iluminação não servem apenas como composição estética, mas como extensão emocional do protagonista. Há uma intensidade quase tátil nessas imagens, que alternam beleza e melancolia, como se cada enquadramento carregasse o peso da existência daquele homem.

A trama acompanha um sujeito interpretado por Joel Edgerton que vive, essencialmente, em função da esposa (Felicity Jones) e da filha. Ele entende o trabalho como responsabilidade, mas também como culpa. A distância imposta pelas longas jornadas fora de casa o faz se perceber como um marido e pai ausente, alguém que falha justamente no que acredita ser sua maior realização: estar perto da família. O filme constrói esse conflito sem grandes discursos, apostando nos gestos, nos olhares e na rotina como forma de exposição emocional.

Ao mesmo tempo, Sonhos de Trem é um filme profundamente sobre solidão e dificuldade de criar vínculos. O protagonista não é um homem expansivo, nem alguém que sabe se relacionar com facilidade. Ele deposita na esposa e na filha uma espécie de redenção emocional, como se nelas estivesse a única chance de pertencimento. Quando essa presença se rompe, o que resta é um vazio ensurdecedor, e o longa se dedica a observar esse luto silencioso com delicadeza e rigor.

Cr. BBP Train Dreams. LLC. © 2025.

Joel Edgerton entrega uma atuação visceral justamente por ser contida. Suas emoções raramente explodem; elas se acumulam, pesam, se escondem no corpo e no olhar. É uma interpretação carregada de sentimentos reprimidos, que encontra apoio direto na trilha sonora, sempre presente, mas nunca invasiva, acompanhando o estado emocional do personagem como um eco interno.

O filme também se permite funcionar como um pequeno retrato histórico, ao mostrar a construção das ferrovias e o crescimento do país a partir do trabalho de homens que passavam a vida longe de suas famílias. Não por idealismo ou senso de progresso coletivo, mas pela necessidade do dinheiro ou pela fuga dos próprios demônios. Essa camada histórica não sobrepõe o drama íntimo, mas o amplia, conectando a solidão individual a um contexto social e econômico maior.

Um filme sobre o custo emocional do trabalho, sobre masculinidades moldadas pelo silêncio e sobre como a ausência pode ser tão definidora quanto a presença. Um drama sensível, visualmente poderoso e emocionalmente devastador justamente por escolher o caminho da contenção.

Nota: 4/5

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