Entre ação, política e emoção, O Sobrevivente encontra força na fragilidade humana.

O Sobrevivente (2025) parte de uma premissa já conhecida do cinema distópico, mas encontra força justamente onde outras versões falharam: na dimensão humana. Diferente do clássico homônimo de 1987, estrelado por Arnold Schwarzenegger, que vale hoje mais pela curiosidade histórica do que pela profundidade, o novo filme dirigido por Edgar Wright compreende que a violência, o espetáculo e a crítica política só ganham peso quando ancorados em vínculos afetivos reais. Aqui, a distopia não é apenas um pano de fundo estilizado; ela é uma engrenagem que esmaga famílias, identidades e escolhas.
O arco familiar é o verdadeiro coração do longa. A narrativa constrói com cuidado a relação do protagonista com sua esposa e sua filha, estabelecendo desde cedo um suporte emocional que justifica cada decisão tomada ao longo da trama. Não se trata apenas de sobreviver ao jogo ou ao programa mortal que estrutura o filme, mas de continuar existindo por alguém. Esse elo afetivo não soa forçado ou utilitário: ele se integra organicamente à dramaturgia e transforma a violência em algo desesperador, não em entretenimento vazio.
Edgar demonstra maturidade ao equilibrar estilo e substância. Conhecido por sua assinatura visual marcante e pelo ritmo preciso, o diretor aqui desacelera quando necessário, permitindo que os personagens respirem e ganhem camadas. O filme entende o tempo da tensão, construindo uma atmosfera constantemente prestes a explodir, sem depender apenas de cenas de ação contínuas. Cada pausa carrega significado, cada confronto tem consequência.
Nesse contexto, Glen Powell entrega uma atuação que confirma seu crescimento como um dos nomes mais interessantes da sua geração. Assim como em Assassino por Acaso (2023), ele demonstra grande capacidade de transitar entre personas distintas, ajustando postura, voz e comportamento conforme o personagem é empurrado para limites cada vez mais extremos. O protagonista não é um herói clássico: ele é um homem em fratura constante, carregando medo, culpa, raiva e amor ao mesmo tempo. Ele consegue comunicar tudo isso sem excessos, deixando que o desgaste emocional seja visível no corpo e no olhar.

O roteiro é eficiente ao dar sentido à participação dos competidores no programa. O filme não os trata como figurantes descartáveis, mas como pessoas que chegaram ali por necessidade, coerção ou desespero. Existe empatia na forma como essas trajetórias são apresentadas, reforçando a crítica à lógica de um sistema que transforma sofrimento em audiência e lucro. O desespero não é individual, ele é estrutural.
Visualmente, O Sobrevivente faz uso inteligente de cenários e localidades, ampliando a sensação de mundo e reforçando a lógica interna da narrativa. Cada espaço visitado parece cumprir uma função dramática, ajudando a contar a história sem a necessidade de exposições excessivas. A ambientação distópica não é genérica: ela tem textura, identidade e coerência com o tom político que o filme propõe.
A ação é impactante, bem coreografada e sustentada por um ritmo que mantém o espectador em alerta constante. No entanto, o que realmente sustenta a tensão não são apenas as perseguições ou confrontos físicos, mas o risco emocional envolvido. A qualquer momento, tudo pode ruir, e o filme faz questão de nos lembrar disso. A sensação de instabilidade é permanente.

O tom político do longa surge de forma mais madura e menos panfletária. As mudanças estruturais do mundo retratado não são apenas citadas, mas sentidas nas relações, nas regras do jogo e na forma como o espetáculo é vendido ao público interno da narrativa. O diretor constrói camadas que dialogam com o presente, refletindo sobre mídia, controle, desumanização e o custo de sobreviver em um sistema que exige sacrifícios constantes.
O longa se destaca por compreender que a distopia mais assustadora não é a violência explícita, mas a normalização dela. Ao investir em personagens complexos, vínculos emocionais sólidos e uma atmosfera de tensão contínua, o filme entrega não apenas um espetáculo de ação, mas uma experiência carregada de significado. É um longa que pulsa, machuca e permanece, provando que ainda há espaço para reinvenção dentro de narrativas já conhecidas.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério
Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio
Instagram: @naoparecemaseserio
Um comentário em “O Sobrevivente | Crítica”