Desejo, conflito e descoberta em um romance que foge dos clichês.

Em Jogos de Sedução (Power of Love), o diretor Jonas Rothlaender encontra no contato entre dois corpos uma forma de revelar muito mais do que o erotismo promete à primeira vista. O filme, estrelado por Saara Kotkaniemi e Nicola Perot, mergulha nas dinâmicas entre prazer, vulnerabilidade e comunicação, mas sem recorrer ao óbvio ou ao explícito. Há aqui um interesse maior em entender as pessoas por trás do desejo, suas motivações, fragilidades e os espaços que habitam dentro e fora do relacionamento. É um olhar maduro, que transforma o romance em campo de experimentação emocional, onde o toque vale tanto quanto o silêncio.
A força do longa está justamente nessa escolha: mostrar o casal junto, mas também separados, permitindo ao espectador conhecer quem são Saara e Robert antes que se tornem um “nós”. A montagem valoriza esses momentos isolados, e é neles que o filme expõe o contraste entre o que cada um espera da vida. Saara, em especial, ganha contornos muito humanos quando vista em família, uma mulher que tenta equilibrar o amor, o trabalho e a aprovação dos que a cercam. Quando ela apresenta Robert à família, o filme escapa de qualquer gesto tradicionalista e transforma o jantar em um pequeno campo de tensões, revelando medos, preconceitos e diferenças geracionais sem recorrer ao dramatismo excessivo.
Rothlaender conduz essa relação com um ritmo que cresce aos poucos, em tons que variam do íntimo ao provocante, sempre preservando uma naturalidade quase documental. Os diálogos são diretos, os silêncios falam muito, e as cenas de intimidade, filmadas com delicadeza, colocam o foco nas descobertas emocionaismais do que nos corpos em si. Há uma honestidade rara nessas sequências: os atores não apenas interpretam, mas parecem realmente buscar o que significam o prazer, o desconforto e a entrega.

O roteiro, enxuto e bem estruturado, evita dispersões. Cada subtrama, seja a tensão familiar, seja o questionamento sobre a carreira de Saara, retorna à narrativa principal com naturalidade, reforçando o tema central de como o amor se sustenta (ou não) quando confrontado por expectativas externas. Essa coesão dá ao filme uma textura realista e íntima, que o diferencia de obras que exploram o desejo apenas como espetáculo visual.
No fim, Jogos de Sedução é menos sobre o jogo e mais sobre o aprendizado que vem depois dele. É sobre olhar o outro com vulnerabilidade, entender que o amor também é feito de desacordos e de espaços em branco. Um filme que se aproxima com calma, provoca sem pressa e deixa no ar o incômodo, e a beleza, de ver o humano em sua forma mais desarmada.
Nota: 4/5
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