Entre clichês e boas atuações, o filme encontra fôlego no elenco feminino.

O terror nacional Apanhador de Almas se destaca mais pelo visual e pelo elenco do que pela força de sua narrativa. Dirigido por Fernando Alonso e Nelson Botter Jr. com cuidado estético, o filme cria uma atmosfera envolvente a partir da fotografia e do uso dos espaços, colocando a casa onde tudo acontece quase como um personagem vivo. Cada cômodo revela detalhes que ajudam a compor o clima da história, mesmo quando a trama em si prefere seguir caminhos mais convencionais.
O centro da narrativa está no grupo de meninas interpretadas por Klara Castanho, Duda Reis, Larissa Ferrara e Jessica Córes. Apesar de compartilharem o mesmo objetivo dentro da prática de bruxaria, cada uma delas carrega um estilo de vida diferente, e isso aparece nos diálogos e nas pequenas tensões que surgem. O roteiro acerta ao distribuir o protagonismo e criar pequenos arcos dramáticos, ainda que em doses distintas, para que todas tenham sua parcela de importância no enredo.
A presença da bruxa, vivida por Angela Dippe, é outro ponto que merece destaque. Mesmo com uma peruca que pode causar certo estranhamento, a atriz entrega uma figura imponente, com presença física marcante e um olhar que sustenta a autoridade de sua personagem. Essa força em cena é essencial para que o conflito ganhe peso, funcionando como contraponto ao grupo de jovens, que se equilibra entre medo, curiosidade e inconsequência.

Um mérito do filme é conseguir criar ritmo. Mesmo sem uma atmosfera genuinamente assustadora, o diretor encontra pausas que permitem respirar entre o caos causado pelas meninas. Há cenas em que a tensão surge não por sustos fáceis, mas pelo desconforto de estar preso junto delas em um espaço que parece não ter saída. Essa escolha ajuda a manter a narrativa viva, ainda que não alcance o impacto esperado para um terror.
Porém, é inegável que Apanhador de Almas tropeça nos clichês do gênero. A história é rasa, os conflitos não ganham grandes camadas, e a sensação é de que o filme prefere a segurança de fórmulas já conhecidas a uma ousadia maior. Isso não chega a comprometer a experiência, mas limita o alcance da obra. O resultado é um terror que se apoia mais na construção estética e no trabalho de elenco do que em uma trama verdadeiramente envolvente.
Ainda assim, o longa guarda algumas surpresas nos atos finais. Mesmo em um caminho previsível, o roteiro consegue inserir pequenos elementos que revitalizam a atenção do espectador e dão uma sensação de recompensa. São detalhes que não reinventam o gênero, mas mostram que há espaço para o cinema de terror brasileiro apostar em boas ideias, ainda que dentro de moldes já familiares.
Temos um filme que não assusta de verdade, mas consegue entreter com sua atmosfera, seu elenco e a forma como faz da casa um cenário vivo. Um terror que poderia ter ido além, mas que entrega o suficiente para manter o interesse até o último minuto.
Nota: 3/5
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