Juan Carlos Medina constrói um thriller humano, onde a verdade pode chegar tarde demais.

Em A Perseguição, o diretor Juan Carlos Medina constrói um suspense que não depende apenas do crime em si, mas de como o tempo se torna o verdadeiro inimigo. A história gira em torno do investigador Malik (Sami Bouajila) e de Catherine (Anne Azoulay), mãe de uma jovem sequestrada e assassinada. A investigação está prestes a prescrever, o que coloca ainda mais peso sobre os ombros de quem busca respostas. O roteiro aposta nessa contagem regressiva para explorar não só a urgência do caso, mas também o desgaste emocional dos envolvidos.
O filme acerta ao dar espaço para o espectador acompanhar as nuances da relação entre Malik e Catherine, mostrando como ambos lidam de formas diferentes com a ausência de um desfecho. Malik carrega a frustração de não ter fechado o caso, enquanto Catherine vive o luto sem justiça. São personagens construídos com cuidado, revelados tanto em diálogos intensos quanto nos silêncios carregados de significado. Medina filma isso com planos que ressaltam sentimentos mais do que ações, entregando um suspense que se sustenta também no ser humano.
Outro ponto forte está na forma como o filme insere personagens secundários sem quebrar o foco central. Há um equilíbrio em mostrar que aquele mundo é maior, mas que toda a tensão recai inevitavelmente sobre Malik e Cathrine. O resultado é um jogo de emoções que cresce a cada cena, sem nunca perder a sensação de urgência.

Por outro lado, o roteiro arrisca quando o caso finalmente prescreve. A mudança de rumo cria um hiato que quebra um pouco o ritmo inicial, atrasando o reencontro da história com a força que tinha no começo. A boa notícia é que, quando retorna ao trilho, o filme recupera seu impacto e entrega um desfecho sólido, deixando a sensação de que a espera valeu.
O trabalho de Bouajila e Azoulay também é essencial para a força dramática. Ele consegue transmitir a exaustão de um investigador que se culpa pelo fracasso, enquanto ela traduz em pequenos gestos a dor de uma mãe que nunca pôde encerrar seu luto. Essa combinação dá credibilidade e emoção à narrativa, sustentando o filme mesmo nos momentos em que o roteiro vacila.
Temos um filme que se comunica com questões maiores: a falha do sistema jurídico, os limites da investigação policial e o impacto psicológico da impunidade. Ao abordar tudo isso sem didatismo, Medina dá ao seu thriller uma camada social que dialoga com a realidade, reforçando que o suspense não está apenas no mistério, mas também na vida real que pulsa fora da tela.
A Perseguição é uma mistura eficiente de suspense, drama e crítica à lentidão da justiça. Medina entende que mais do que resolver um crime, o cinema pode explorar o que significa conviver com a ausência de respostas.
Nota: 4/5
Contato: naoparecemaseserio@gmail.com
Youtube: Canal do Youtube – Não Parece Mas É Sério
Facebook: facebook.com/naoparecemaseserio
Instagram: @naoparecemaseserio