Cinema, Crítica de Filme

Dormir de Olhos Abertos | Crítica

Um mosaico de cotidianos distintos unidos pela sensação de deslocamento

Dirigido por Nele Wohlatz, Dormir de Olhos Abertos integra a Sessão Vitrine Petrobrás, espaço que tem revelado filmes independentes de forte identidade. Aqui, a proposta é explorar a solidão em diferentes camadas: seja a barreira da língua, a condição da imigração, a relação com um país novo ou até a própria personalidade que distancia. A diretora se interessa menos por soluções narrativas fáceis e mais por registrar como cada personagem vai “se virando” para encontrar algum sentido ou possibilidade de vida em um lugar que nunca parece totalmente seu.

O longa se constrói a partir de diferentes cotidianos, cada um com histórias particulares. Não há pressa em unificá-las: a escolha é intercalar esses fragmentos, oferecendo ao espectador o olhar de cada personagem separadamente. Isso dá espaço para uma observação atenta de costumes, em especial na alimentação, que surge como um gesto cultural forte e repetido. São detalhes que fazem diferença: enquanto o Brasil se mostra ao fundo, o foco permanece naquilo que é estrangeiro, no contraste entre o que é familiar para uns e estranho para outros.

Esteticamente, Wohlatz opta por planos próximos, sempre atentos aos gestos, aos rostos, às relações sutis. Nas externas, a câmera se abre e deixa o movimento do coletivo atravessar a narrativa, criando uma atmosfera que lembra uma conversa cotidiana, simples, espontânea, às vezes banal, mas carregada de humanidade. O tema, nesse sentido, pouco importa: o que vale é o ato de falar, de estar em contato, de criar uma ponte mínima contra o isolamento.

Ainda que esse recorte seja potente, o filme esbarra em problemas de coesão. A alternância entre diferentes tipos de tela e cortes bruscos enfraquece a ligação entre as histórias. Se a ideia é justamente mostrar o desencontro e a fragmentação, o risco é perder também o fio que mantém o espectador conectado. Em alguns momentos, a sensação é de quebra, como se estivéssemos assistindo a pequenas ilhas narrativas sem uma travessia bem definida.

Por outro lado, essa fragmentação também reflete o próprio tema: são vidas soltas, deslocadas, que raramente encontram um centro de pertencimento. Talvez não haja, de fato, uma forma de unificar tudo e nesse sentido, o incômodo é coerente com a proposta. O mérito de Wohlatz é dar voz a experiências tão distintas, sem recorrer ao didatismo, permitindo que cada personagem seja dono do próprio espaço em cena.

O longa não se propõe a dar respostas fáceis, mas a revelar estados de suspensão, de busca, de tentativa. Um cinema de observação que valoriza a diferença, que escuta e acolhe, mesmo que tropece na dificuldade de costurar todas as peças. O resultado é um retrato humano, delicado e real, sobre o que significa viver entre mundos.

Nota: 3/5

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